Meio Ambiente

Rio Negro despenca 2 metros em 25 dias: o que explica a seca antecipada em Manaus

Rio Negro em Manaus com nível baixo expondo margens secas e barcos encalhados durante seca antecipada
Rio Negro atinge 16,59 m, queda de 2 m em 25 dias, aproximando Manaus do decreto de emergência

O nível do Rio Negro em Manaus marcou 16,59 metros nesta terça-feira (27), queda de dois metros em apenas 25 dias e uma cota 2,74 metros abaixo do mesmo período de 2025. A vazante acelerada coloca a capital amazonense a centímetros do decreto de emergência.

Mas a velocidade da descida não é o único sinal de alerta. A diferença em relação ao ano passado, que já enfrentava estiagem histórica, vinha se estreitando até inverter a tendência nas últimas semanas.

Queda mais lenta, mas patamar mais baixo

Entre 2 e 27 de outubro, o rio recuou dois metros — de 18,59 para 16,59. No mesmo intervalo de 2025, a baixa foi de 3,11 metros. A vazante deste ano é menos intensa, porém parte de um nível inicial já mais deprimido.

Dados do Porto de Manaus confirmam: a cota atual é a menor para a data na série recente. O rio não para de descer e a previsão de chuvas regulares segue incerta para as próximas semanas.

Emergência atinge 46 municípios e 114 mil famílias

O boletim da Defesa Civil estadual, atualizado no sábado (24), contabiliza 46 cidades em situação de emergência por seca e incêndios florestais. Outras 12 estão em alerta e quatro em atenção.

Entre os municípios mais afetados estão:

  • Alvarães, Amaturá, Anamã — isolamento fluvial severo
  • Coari, Tefé, Tabatinga — logística de abastecimento comprometida
  • Manacapuru, Parintins, Humaitá — impactos na saúde e educação

Manaus figura na lista de alerta, com risco de escalar para emergência se a cota tocar 16,55 metros — apenas quatro centímetros abaixo da marca atual.

El Niño e o déficit de chuvas nas nascentes

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta a confirmação do El Niño como fator agravante. O boletim de 1º de setembro destaca as bacias do Negro e do Branco como as de maior preocupação na Amazônia.

O combo de baixos níveis, déficit pluviométrico e previsões climáticas desfavoráveis exige monitoramento contínuo. Para os rios Amazonas, Solimões e Tapajós, a projeção é de vazante dentro do padrão histórico — mas com risco de alongamento se as chuvas atrasarem.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão a gravidade do cenário nas próximas semanas: o retorno das chuvas na cabeceira do Negro, a velocidade de recomposição dos afluentes e a capacidade logística de atendimento às comunidades isoladas.

O nível de 16,55 metros — gatilho do decreto de emergência na capital — pode ser atingido ainda esta semana se a média diária de descida se mantiver. Empresas que dependem da hidrovia para escoamento de cargas ou abastecimento de insumos já revisam rotas e estoques.

Para o setor produtivo, o recado é claro: a janela de navegação plena se fechou antes do esperado. Planejar alternativas modais e reforçar estoques de segurança deixa de ser precaução e vira necessidade operacional imediata.