Economia

O bilionário que compra quando todos vendem: por que Rajiv Jain ignora o pânico no Brasil

Rajiv Jain, cofundador da GQG Partners, em retrato profissional sorrindo
Rajiv Jain, maior acionista privado da Petrobras, mantém aposta no Brasil apesar do pânico de mercado.

Rajiv Jain, maior acionista privado da Petrobras e cofundador da GQG Partners, classificou a fuga de capitais após a reeleição de Lula como exagerada e sinalizou intenção de ampliar posições no país. A gestora administra US$ 150 bilhões e tem o Brasil como maior aposta entre mercados emergentes.

Enquanto o real registrava a maior queda em mais de vinte anos e o Ibovespa acionava circuit breaker com recuo de 17%, Jain manteve a tese: valuations atrativos, lucros sólidos e dividend yields elevados sustentam a tese de longo prazo.

O contra-ataque de 2022 que explicou a lógica atual

A postura não é improvisada. No ano passado, quando o mercado temia interferência política na estatal, a GQG tornou-se a maior acionista privada da Petrobras. O resultado: retorno superior a 285% em dólares, incluindo dividendos, superando Microsoft, Amazon e Alphabet no mesmo período.

Jain cita o primeiro mandato de Lula, nos anos 2000, quando as ações brasileiras subiram embaladas pelo boom de commodities. Para ele, os freios e contrapesos institucionais funcionam “razoavelmente bem” independentemente do ocupante do Planalto.

O que está no portfólio além da Petrobras

A aposta no Brasil não se resume a petróleo. A gestora mantém posições relevantes em:

  • Bancos brasileiros — beneficiados por spread alto e inadimplência controlada
  • Serviços públicos — receitas previsíveis e regulação estável
  • Petrobras — ainda considerada “barata” com dividend yield elevado

No fim de setembro, ações brasileiras representavam 14% do fundo de mercados emergentes de US$ 18 bilhões — queda frente aos 24% de março, mas ainda quase dez pontos percentuais acima do peso no índice de referência.

O momento delicado da gestora

A convicção de Jain contrasta com a pressão interna. O fundo de mercados emergentes acumula alta inferior a 2% em 2024, ante 14% do benchmark. Resgates fortes atingiram a GQG após a posição pessimista em inteligência artificial pesar no desempenho.

Parte da redução no Brasil serviu justamente para financiar compras de semicondutores em Taiwan e Coreia do Sul, setor onde a gestora passou a ver oportunidade.

Estabilização técnica e o que observar adiante

Na terça-feira (27), o Ibovespa recuava apenas 0,7% e o real avançava 1,1%, sugerindo que o choque inicial foi absorvido. Jain admite que reduzir o déficit orçamentário segue crucial para baixar o custo de financiamento — hoje em dois dígitos — mas vê espaço para reformas favoráveis ao mercado durante o governo.

“A política no Brasil nunca é tão boa quanto acham nem tão ruim quanto imaginam. A resposta geralmente está no meio”, resume o gestor.

O que monitorar nas próximas semanas

Três variáveis devem ditar o ritmo dos fluxos: a tramitação do arcabouço fiscal no Congresso, a política de preços da Petrobras e a trajetória da Selic. Investidores que seguem a lógica de Jain — comprar ativos de qualidade no pânico — já mapeiam pontos de entrada caso a volatilidade retorne.