Economia

Dólar salta 8%: BC revela o único gatilho para intervir no câmbio agora

Gabriel Galípolo presidente Banco Central Brasil entrevista coletiva dólar alta 8%
Galípolo define "disfuncionalidade" como único gatilho para BC intervir no câmbio após dólar subir 8,41%

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, desenhou uma linha vermelha clara: a autoridade monetária só entrará no mercado de câmbio se houver disfuncionalidade. A declaração, dada nesta terça-feira (27), chega menos de 24 horas após o dólar registrar a maior alta diária desde janeiro de 1999.

Mas o que exatamente qualifica como “disfuncionalidade” num dia em que a moeda americana subiu 8,41% e a Bolsa acionou o circuit breaker? A resposta pode ditar o ritmo dos seus investimentos nas próximas semanas.

O dia em que o câmbio quebrou recordes de 1999

O pregão de segunda-feira (26) entrou para a história. Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — cenário não precificado pelo mercado, que apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL) —, o dólar fechou a R$ 5,409.

A reação violenta derrubou o Ibovespa em 10%, forçando a B3 a paralisar as negociações pelo mecanismo de circuit breaker, algo inédito desde março de 2020. O medo de uma deterioração fiscal imediata tomou conta dos terminais.

A resposta silenciosa: US$ 4 bilhões em swaps

Nesta terça, o dólar devolveu parte dos ganhos, caindo 0,87% por volta das 11h50, para R$ 5,362. Nos bastidores, porém, o BC agiu. A autoridade vendeu a totalidade dos 80 mil contratos de swap cambial ofertados no leilão de rolagem do vencimento de 3 de novembro.

A operação, já programada, injetou US$ 4 bilhões no mercado futuro, divididos em dois vencimentos:

  • 4 de janeiro de 2027: 26 mil contratos (US$ 1,3 bilhão);
  • 1º de fevereiro de 2027: 54 mil contratos (US$ 2,7 bilhões).

Galípolo evitou classificar a venda como intervenção extraordinária, mantendo o discurso de normalidade operacional.

Tesouro entra em cena com recompra histórica

O movimento mais agressivo veio do lado fiscal. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados da semana e anunciou uma recompra massiva de papéis prefixados e atrelados à inflação (NTN-B).

Foram R$ 14,8 bilhões recomprados em um único dia — a terceira maior intervenção diária da série histórica, iniciada em janeiro de 2000. A estratégia dupla visa aliviar a pressão sobre as taxas longas e oferecer liquidez a quem precisa sair da posição.

Coordenação política e a definição do “invisível”

Questionado sobre atuação conjunta com a Fazenda, Galípolo confirmou a sintonia. Lembrou que os leilões do Tesouro são operacionalizados pelo BC e citou o monitoramento constante dos ministros Dario Durigan (Fazenda), Bruno Moretti (Planejamento) e do próprio presidente Lula.

Contudo, o presidente da autoridade monetária não detalhou o limiar técnico que dispara a intervenção direta no câmbio à vista. “Quando a gente vir, a gente vai atuar”, resumiu.

O que observar daqui para frente

O mercado segue em compasso de espera. A correção desta terça alivia a tensão imediata, mas o gatilho para uma atuação mais forte do BC permanece subjetivo. Investidores devem monitorar três variáveis: a rolagem dos swaps cambiais nas próximas semanas, o comportamento das taxas longas nos leilões do Tesouro e, principalmente, os primeiros sinais concretos da equipe econômica sobre a trajetória fiscal. A “disfuncionalidade” pode ter cara de número, mas, por enquanto, continua sendo uma decisão política.