Justiça

TCU julga R$ 2 bi do BNB: editais beneficiam atuais operadores?

Tribunal de Contas da União analisa editais do Banco do Nordeste para Crediamigo e Agroamigo
TCU julga licitações de R$ 2 bi do BNB que podem favorecer operadores atuais de microcrédito

O Tribunal de Contas da União deve decidir nas próximas semanas se há irregularidades nas licitações do Banco do Nordeste para os programas Crediamigo e Agroamigo — juntas, somam cerca de R$ 2 bilhões. A suspeita central: os editais teriam sido desenhados para favorecer os operadores que já atuam sem concorrência há anos.

O desfecho pode redesenhar a operação dos dois maiores programas de microcrédito do Nordeste e definir se o modelo atual de contratação resiste ao crivo do controle externo.

O que está em jogo nos pregões

O Crediamigo atende microempreendedores urbanos com crédito orientado. O Agroamigo foca em agricultores familiares. Desde 2005, o Instituto Nordeste Cidadania opera o Crediamigo sem passar por licitação — o que, segundo a Folha mostrou no ano passado, resultou em contratos mais onerosos.

O TCU determinou a concorrência pública para por fim a esse modelo. O Banco do Nordeste realizou os pregões, mas nenhum participante cumpriu todos os requisitos. Resultado: os operadores atuais seguem no posto enquanto a corte reanalisa o caso.

Empresas de limpeza e consultoria na disputa

O deputado Hildo Rocha (MDB-MA) provocou o tribunal ao apontar a participação de empresas sem experiência em microcrédito. No pregão do Crediamigo, apareceram:

  • Empresas de consultoria
  • Prestadoras de limpeza
  • Locadoras de mão de obra
  • Soluções empresariais genéricas
  • O próprio Instituto Nordeste Cidadania (operador desde 2005)

Para o parlamentar, o desenho do edital permitiu a entrada de players sem qualificação setorial, o que comprometeria a seleção do melhor operador.

Banco contesta e diz ter aperfeiçoado regras

O BNB nega favorecimento. Em nota, afirmou que “aperfeiçoou os editais durante a condução dos processos, com o objetivo de aumentar a segurança jurídica, a competitividade e a adequação das regras às orientações dos órgãos de controle”.

A instituição sustenta que participação em pregão não equivale a habilitação ou contratação — as empresas ainda passam por análise de propostas, diligências e comprovação de requisitos técnicos. Também alega ter alterado os editais para exigir que experiências anteriores em terceirização sejam compatíveis com atividades de microcrédito.

Racha técnico no tribunal

A área técnica do TCU recomendou o arquivamento da investigação por duas vezes. Na primeira, o ministro Odair Cunha discordou e exigiu novas apurações. Agora, o plenário avaliará a nova recomendação pelo arquivamento.

O ponto nevrálgico da discussão técnica: o formato criado pelo banco caracteriza contratação de serviços especializados de microcrédito ou, na prática, terceirização de mão de obra? Se for o segundo, abre-se espaço para empresas sem experiência no setor.

O que observar daqui para frente

Se o plenário seguir a área técnica e arquivar o caso, os pregões atuais prosseguem e os contratos serão assinados sob as regras atuais — mantendo a estrutura que o TCU tentou romper. Se houver irregularidade, o banco terá de refazer as licitações com critérios mais restritivos, o que pode atrasar a regularização e elevar custos de transição.

Para quem acompanha o setor, o sinal a monitorar é a votação no plenário do TCU nas próximas semanas. O resultado ditará se o modelo de operação do microcrédito nordestino muda de mãos — ou se a interinidade vira regra por mais um ciclo.