Economia

Você não vai acreditar: calote das famílias atinge pico de 12 anos

Gráfico mostra inadimplência familiar no Brasil atingindo maior nível desde 2012
Calote das famílias chega a pico de 12 anos, pressionando sistema financeiro brasileiro.

O Banco Central acaba de confirmar: os ativos problemáticos no crédito às famílias chegaram ao maior patamar desde 2012. A inadimplência acima de 90 dias, com indícios de que não será quitada, segue pressionando o sistema financeiro mesmo sem as mudanças recentes de contabilização.

O que isso significa para o seu bolso e para os negócios nos próximos meses? A resposta está nos detalhes que a autoridade monetária divulgou nesta terça-feira.

O retrato brutal do endividamento familiar

O comprometimento de renda das famílias bateu recorde em 21 anos. Quem ganha menos sente o peso desproporcional: a parcela da renda destinada a juros e amortizações subiu para níveis que comprometem o consumo básico.

Dados do relatório mostram que a taxa de inadimplência do sistema financeiro nacional seria 0,78 ponto percentual menor se as regras antigas de baixa a prejuízo (write-off) ainda valessem. Esse efeito explica cerca de 45% do aumento de 1,76 ponto percentual observado desde dezembro de 2024.

Mas o BC alerta: mesmo sem a alteração regulatória, o calote continuaria subindo. As estimativas de probabilidade de default indicam pressão na maioria das modalidades até o fim do ano.

Empresas também perdem fôlego

Do lado corporativo, o cenário não é mais aliviante. Aumentou o número de companhias com lucro líquido menor e despesa financeira líquida maior. A margem de segurança para honrar dívidas encolheu, elevando o risco de crédito para os bancos.

Esse movimento atinge especialmente setores sensíveis a juros altos e câmbio volátil. Pequenas e médias empresas, com menor acesso a capital de mercado, ficam mais expostas.

O caso curioso do consignado privado

Uma surpresa do relatório: o crédito consignado para trabalhadores do setor privado cresceu em volume, mas apresenta risco materializado superior ao do crédito pessoal sem garantia. Como explicar?

  • Parte relevante dos atrasos concentra-se em tomadores que permaneceram empregados ou voltaram ao mercado formal.
  • O desconto em folha, que deveria mitigar o risco, não está funcionando como esperado.
  • A autoridade monetária aponta “fricções operacionais” como provável causa — falhas na portabilidade, na comunicação com empregadores ou na atualização de cadastros.

Essa disfunção operacional pode estar inflando a inadimplência de uma carteira que, em tese, seria das mais seguras.

Rentabilidade bancária sob pressão

No primeiro semestre, o lucro do sistema bancário recuou. Bancos públicos sentem mais o impacto, carregando riscos do crédito rural e do crédito pessoal. A combinação de provisões maiores e spread comprimido aperta as margens.

Indicadores-chave para monitorar

  • Inadimplência total: alta de 1,76 pp desde dez/2024.
  • Efeito regra de write-off: responde por 0,78 pp (45% da alta).
  • Comprometimento de renda: maior nível em 21 anos.
  • Probabilidade de default: pressionada na maioria das linhas até dez/2025.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos trimestres: a trajetória da Selic, a velocidade de recuperação do mercado de trabalho formal e a eficácia dos ajustes operacionais no consignado privado. Se o emprego formal mantiver expansão, a tendência é de estabilização gradual. Caso contrário, o pico de 2012 pode ser apenas um degrau para patamares ainda mais elevados.