Economia

Durigan autoriza nova recompra de títulos: o que muda para seu bolso agora

Dario Durigan anuncia recompra de títulos do Tesouro Nacional para conter crise financeira
Ministro da Fazenda autoriza intervenção do Tesouro após queda histórica da Bolsa e alta do dólar

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deu aval para que o Tesouro Nacional volte ao mercado comprando títulos da dívida pública sempre que julgar necessário. A decisão chega após um dia em que a Bolsa derreteu quase 14% e o dólar saltou mais de 8% — a maior alta diária desde 1999. A pergunta que fica: até onde o governo está disposto a ir para estancar a sangria?

Na segunda-feira (26), o Tesouro já havia injetado cerca de R$ 10 bilhões em duas operações extraordinárias. Foram R$ 7 bilhões em papéis prefixados pela manhã e R$ 4 bilhões em títulos atrelados à inflação (NTN-B) à tarde. Os números exatos ainda serão oficializados, mas a sinalização é clara: há munição para novas rodadas.

O que detonou o caos de segunda-feira

O mercado financeiro havia montado posições apostando num desfecho eleitoral diferente. Quando o resultado confirmou a reeleição de Lula, houve uma corrida simultânea para desmontar essas apostas — o que, na prática, significa vender ativos brasileiros a qualquer preço. Sem compradores, os preços desabam e a volatilidade explode.

Durigan classifica o episódio como “troca de posições”, não como desconfiança estrutural nos fundamentos da economia. O Ibovespa fechou aos 176.608 pontos, após chegar a recuar mais de 17% no intraday — gatilho para o circuit breaker, que paralisa os negócios por 30 minutos. O dólar encerrou a R$ 5,40, após tocar R$ 5,60.

Como a recompra acalma os ânimos

Quando o Tesouro recompra seus próprios títulos, ele atua como comprador de última instância. Isso injeta liquidez no mercado secundário, reduz o prêmio de risco exigido pelos investidores e evita que a curva de juros se desancore. Em termos práticos: evita que o custo da dívida pública exploda e que o contágio atinja crédito imobiliário, financiamento de veículos e capital de giro das empresas.

  • Prefixados: sensíveis à expectativa de Selic futura
  • NTN-B (indexadas à inflação): termômetro da confiança no regime fiscal
  • Volume total: ~R$ 10 bi em um único dia

A atuação foi coordenada com o Banco Central, que também operou no câmbio e no mercado de juros futuros. O objetivo declarado não é fixar preço do dólar ou da taxa de juros, mas restabelecer “parâmetros de funcionamento” — ou seja, tirar o mercado do modo pânico.

O recado político por trás da técnica

Durigan reuniu-se com Lula na noite de segunda para apresentar o balanço da turbulência e as medidas adotadas. O ministro disse ter reforçado ao presidente a necessidade de “sinalização muito propositiva para o mercado e para o Congresso”. A leitura: a equipe econômica quer espaço para agir, mas sabe que a credibilidade depende de gestos políticos concretos.

Entre as medidas em gestação, destaca-se uma mudança legislativa para obrigar o governo a perseguir o centro da meta fiscal, e não apenas o piso da banda de tolerância. A proposta ampliaria os instrumentos de contingenciamento de despesas, tornando o ajuste mais automático e menos discricionário.

O que observar nos próximos dias

Durigan disse esperar “nível de racionalidade sem grandes oscilações” já nesta terça-feira. A abertura mais calma do câmbio foi lida como sinal inicial de acomodação. Mas o teste real virá com a divulgação do relatório de mercado (Focus) e com a tramitação da MP do Imposto Seletivo — o “imposto do pecado” — que deve chegar ao Congresso ainda esta semana.

O novo tributo incidirá sobre cigarros, bebidas alcoólicas e açucaradas, veículos e bens minerais. A equipe econômica promete alíquotas que preservem, no agregado, a arrecadação atual do IPI. Se o envio for ágil e o texto não sofrer desidratação no Congresso, será um sinal de que o governo consegue entregar agenda reforma mesmo sob pressão.

Para quem gere caixa ou carteira: mantenha o olho na curva de juros reais (NTN-B 2035/2045) e no spread entre DI x IPCA. A volatilidade deve seguir alta enquanto não houver clareza sobre a equipe do próximo mandato e o desenho do novo arcabouço fiscal. A recompra do Tesouro compra tempo — não resolve a equação sozinha.