Economia

Dólar recua após tombo histórico, mas mercado segue tenso com fiscal e Fed

Gráfico mostra dólar recuando para R$ 5,39 após alta histórica de 8,21% e Ibovespa caindo 13,88%
Dólar opera em leve queda a R$ 5,39 após maior alta diária desde 1999, com mercado atento a riscos fiscais e Fed.

O dólar abriu esta terça-feira (27) em leve queda de 0,06%, cotado a R$ 5,3992, após registrar na véspera a maior alta diária desde 1999 — um salto de 8,21% que levou a moeda a R$ 5,4027. O Ibovespa, por sua vez, desabou 13,88% na segunda-feira, fechando aos 176.608 pontos no pior pregão desde março de 2020. A pergunta que fica: trata-se de um alívio momentâneo ou o prenúncio de mais volatilidade?

O choque eleitoral e o circuito de proteção

A vitória de Lula (PT) com 51,78% dos votos válidos contra 48,22% de Flávio Bolsonaro (PL) pegou parte do mercado de surpresa. A maioria das pesquisas indicava vantagem do adversário no segundo turno, e a reação foi imediata: a B3 acionou o circuit breaker duas vezes, paralisando as negociações por 30 minutos e, na sequência, por uma hora.

Pelas regras da bolsa, o mecanismo dispara quando o Ibovespa cai mais de 10% em relação ao fechamento anterior. Nesta segunda, a B3 elevou o gatilho da segunda interrupção para 20%, tentando conter o pânico.

Setores mais atingidos: varejo, consumo e bancos

As ações ligadas ao consumo doméstico lideraram as perdas. Confira as maiores quedas do pregão:

  • Magazine Luiza: -58,23%
  • Vamos: -56,79%
  • Hapvida: -54,93%

As blue chips — papéis de maior peso no índice — também sofreram. Entre os bancos, o Banco do Brasil recuou 27,31%, Bradesco caiu cerca de 21%, BTG Pactual perdeu 24,83% e Itaú Unibanco cedeu 13,66%. Petrobras fechou em queda de 6,8% a 8,2%, a depender da classe de ação.

O foco no fiscal e a promessa de uma PEC

Analistas apontam que a trajetória da dívida pública e a credibilidade das metas fiscais serão os vetores decisivos nos próximos meses. Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, resume: o controle das despesas e a condução da política fiscal no quarto mandato determinarão a confiança dos agentes econômicos.

Do lado do governo, há sinais de uma PEC com revisão de gastos obrigatórios e busca do centro da meta fiscal, segundo Jason Vieira, economista-chefe da Lev DTVM. A execução, porém, permanece incerta.

Cenário externo: Fed, Israel e petróleo

Três frentes externas adicionam pressão:

  • Federal Reserve: decisão de juros nesta quarta-feira (28); expectativa majoritária é de manutenção das taxas, mas falas do presidente Kevin Warsh podem mover mercados.
  • Eleições em Israel: primeiro pleito pós-guerra em Gaza; resultado pode redefinir a geopolítica regional.
  • Petróleo: Brent a US$ 114,88 (-0,80%) e WTI a US$ 101,05 (-0,70%) às 9h15, ainda tensionados por ataques houthis contra a Arábia Saudita.

Contágio na Argentina e risco de judicialização

O Merval, índice acionário argentino, recuou 4,50% em sintonia com o pessimismo brasileiro. O economista Gustavo Ber alerta para o efeito dominó em ano de múltiplas eleições globais — EUA, França e a própria Argentina em 2027, quando Javier Milei buscará a reeleição.

No front jurídico, a prorrogação do horário de votação das 17h às 19h por decisão do ministro Cristiano Zanin (STF) e a declaração de Flávio Bolsonaro de que pedirá anulação do pleito abrem espaço para questionamentos judiciais. William Castro Alves, da Avenue, avalia que esse ambiente de incerteza tende a impactar os preços dos ativos.

O que observar daqui para frente

O dólar acumula queda de 1,57% no ano, mas alta de 4,41% no mês. O Ibovespa, apesar do tombo, ainda sobe 27,28% em 2022. Os próximos gatilhos são claros: anúncio da equipe econômica, tramitação da PEC fiscal, decisão do Fed e eventuais desdobramentos jurídicos da eleição. Quem posiciona capital no Brasil deve monitorar a curva de juros futuros — ela antecipa se o mercado precifica nova alta da Selic para conter a inflação cambial.