A cúpula evangélica do Rio de Janeiro fechou com Flávio Bolsonaro nas urnas, mas o apoio chegou tarde, relutante e movido por cálculo frio. O que mudou entre abril e setembro para unir bispos e apóstolos em torno do senador?
A resposta passa por mensagens vazadas, uma mansão de R$ 6 milhões e uma comparação bíblica que circula nos bastidores há meses. Entender esse movimento revela como o voto religioso ainda dita o ritmo das grandes disputas no país.
O estopim que acordou a bancada
Até meados de setembro, os principais líderes de denominações históricas mantinham silêncio público. Silas Malafaia, em vídeos e entrevistas, classificava a candidatura como “negócio de família” e defendia Tarcísio de Freitas. Na Assembleia de Deus Belém, o pastor Marco Feliciano cobrou reciprocidade da família Bolsonaro em vez de uma via de mão única.
A virada veio quando o ministro André Mendonça tornou públicas trocas de mensagens entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Antônio Carlos Vorcaro, além do contrato firmado com a mulher do magistrado. O episódio incendiou a base bolsonarista e forçou os pastores a saírem do muro.
Por que a resistência durou tanto
Em conversas reservadas, lideranças evangélicas listavam obstáculos concretos contra o nome do senador:
- Mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, banco público do Distrito Federal;
- Imóveis quitados com dinheiro em espécie;
- Recursos de Vorcaro destinados a filme sobre Jair Bolsonaro;
- Mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro.
Para esses articuladores, Flávio tinha mais chance de perder do que vencer — e uma derrota comprometeria o projeto de poder da direita para 2026. A avaliação interna era de que Tarcísio seria o único nome capaz de bater Lula em uma disputa presidencial.
A comparação que ninguém assume em público
Nos corredores de grandes templos, a família Bolsonaro vem sendo comparada à casa de Eli, o sacerdote do Primeiro Livro de Samuel. A narrativa: um pai honrado que não conteve os filhos, acusados de desviar ofertas e cometer imoralidades no templo. A analogia circula entre bispos da Assembleia de Deus, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo e de ministérios neopentecostais.
Outro termo que gruda no senador: “novo crente”. A expressão, variação de “novo rico”, descreve quem usa a fé como vitrine política sem domínio da teologia, chegando à religião por igrejas vistas como seduzidas pelo poder — caso da Comunidade das Nações, frequentada por Flávio.
O pragmatismo falou mais alto
Quando o cenário virou e Flávio disparou nas pesquisas, o cálculo mudou. Três fatores selaram o apoio tardio:
- O voto bolsonarista consolidado no segundo turno;
- Pressão direta dos fiéis nas redes e nos templos;
- Interesse estratégico de manter acesso a um futuro presidente da República.
No Maracanãzinho, durante o centenário da Assembleia de Deus Madureira, o bispo Samuel Ferreira pediu que o público repetisse “irmão vota em irmão”. A apóstola Valnice Milhomens profetizou que “não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação”. Frases-código para mobilizar o rebanho.
O que observar daqui para frente
A eleição no Rio expôs uma fratura: a bancada evangélica não vota mais em bloco por convicção, mas por conveniência tática. O PT, que evitou dialogar com grandes denominações em 2022, vê agora em Otoni de Paula — conservador nos costumes, ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, derrotado ao declarar voto em Lula no primeiro turno — uma ponte possível para 2026.
Enquanto a direita lambe as feridas e alimenta teorias conspiratórias, os pastores já desenham o próximo tabuleiro. Antes da arrancada de Flávio, admitiam entre si que 2026 estava perdido e miravam Tarcísio para 2030. O xadrez religioso no Brasil não para — e o próximo lance pode sair de onde menos se espera.
