Cultura

O segredo que ninguém conta: por que pastores traíram Flávio Bolsonaro até o último minuto

Líderes evangélicos de peso fecharam apoio a Flávio Bolsonaro na reta final da disputa pela prefeitura do Rio, mas o que parecia união monolítica esconde rachas profundos. A mobilização religiosa só aconteceu em setembro, meses após o início da pré-campanha. O que mudou o jogo não foi fé, e sim um vazamento estratégico.

O gatilho que acordou o “exército de oração”

Até agosto, as maiores denominações mantinham silêncio ensurdecedor. Silas Malafaia, voz mais influente do segmento, chegou a declarar em vídeos que “candidatura não é negócio de família” e defendia abertamente Tarcísio de Freitas. O bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, evitava palanques.

A virada coincidiu com a divulgação, pelo ministro André Mendonça, de mensagens entre Alexandre de Moraes e o empresário Eduardo Vorcaro — incluindo contratos envolvendo a esposa do magistrado. O episódio incendiou a base bolsonarista e forçou os pastores a saírem da neutralidade.

  • Março a agosto: silêncio das grandes igrejas; pré-campanha sem palanque religioso
  • Setembro: vazamento das mensagens Moraes-Vorcaro via Mendonça
  • Últimas semanas: profecias, orações públicas e pedido de voto “irmão vota em irmão”

Por que a resistência durou tanto tempo

Em conversas reservadas, pastores comparam a família Bolsonaro à dinastia do sacerdote Eli, figura bíblica que não conteve os filhos corruptos. O paralelo não é gratuito: pesavam contra Flávio a mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, imóveis quitados em dinheiro vivo, recursos de Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro e a mentira admitida sobre encontros com o ex-banqueiro.

Para a cúpula evangélica, Flávio representava risco duplo: maior chance de derrota contra Eduardo Paes e, se eleito, comprometimento do projeto de poder da direita para 2026. Tarcísio era — e segue sendo — o nome preferido para a sucessão presidencial.

O rótulo de “novo crente” e a pragmática final

Um interlocutor próximo à liderança definiu Flávio como “novo crente”: termo análogo a “novo rico”, para quem usa a fé como ativo político sem domínio da teologia, oriundo de uma igreja vista como seduzida pelo poder — a Comunidade das Nações.

Quando o apoio enfim veio, foi pragmático. Flávio era o único nome com lastro no eleitorado bolsonarista e viabilidade real de vitória. Somaram-se a pressão dos fiéis nas bases e o cálculo de proximidade com um futuro presidente da República.

O que observar daqui para frente

O PT evitou citar Otoni de Paula na vitória. Ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, conservador nos costumes, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas não se entregou. Visto com desconfiança petista, pode se tornar ponte para negociar com as grandes igrejas — algo que o partido e seus evangélicos não quiseram ou não conseguiram fazer até aqui. O xadrez religioso de 2026 já começou.