Economia

O segredo do agro que Lula enfrenta de novo: 2006 se repete?

Agricultor observa lavoura de soja seca sob sol forte, representando crise do agronegócio brasileiro em 2026
A seca e os custos altos ameaçam repetir a crise de 2006 no campo brasileiro.

O presidente Lula herda um agronegócio à beira de uma crise que tem cheiro de déjà vu. Juros altos, commodities em queda e o fantasma do El Niño formam a tempestade perfeita para a safra 2026-27. A diferença agora é o tamanho da conta.

Em 2006, o então ministro Roberto Rodrigues classificou o momento como “uma das piores crises das últimas décadas”. Câmbio desfavorável, custos explodindo, investimentos feitos no ciclo de alta e secas no Sul derrubaram a renda do produtor. Dezoito anos depois, o roteiro é assustadoramente similar.

O que mudou — e o que piorou

O governo anterior tentou responder com seguro rural, fundo contra catástrofes, novos instrumentos de financiamento e aposta em biodiesel e energias renováveis. A Embrapa ganhou fôlego. Mas faltou o essencial: um programa de renda perene, bancado não só pelo contribuinte, mas pelo próprio setor.

Sem essa estrutura, a agricultura segue refém de variáveis que não controla. Cada safra vira roleta.

A equação atual: juros, preços e clima

Internamente, a Selic elevada trava o crédito e incha o endividamento. Não é drama só do campo — mas no agro o ciclo é mais longo e o risco, maior. Uma política de seguro rural que não dependa apenas do Tesouro aliviaria esse gargalo cíclico.

Lá fora, os preços das commodities recuaram após recomposição dos estoques globais nos últimos anos. A safra 2026-27, que está sendo plantada agora, carrega uma incógnita de 367 milhões de toneladas — a meta oficial do governo para grãos. O El Niño pode rasgar essa projeção.

  • Meta oficial: 367 milhões de toneladas de grãos
  • Risco climático: El Niño ativo durante o ciclo
  • Custos 2024: elevados (fertilizantes, diesel, sementes)
  • Juros reais: entre os maiores do mundo

Se a quebra se confirmar, a conta chega na mesa de todo brasileiro: alimentos mais caros, pressão inflacionária, dólar pressionado.

Geopolítica: a fatura que não para de subir

As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio alongaram-se além do previsto. Fertilizantes, diesel, defensivos — tudo segue caro. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome. Cada dia de conflito lá fora é centavo a mais no custo de produção aqui dentro.

O alívio que vem da diplomacia

Do lado externo, há um contraponto. A vitória de Lula reduziu a probabilidade de rupturas bruscas com a China, maior compradora do agro brasileiro. No cenário alternativo, pressões alinhadas a Washington poderiam criar ruídos comerciais com Pequim — mesmo que não viessem a sanções diretas.

Mas a tranquilidade não é total. A União Europeia prepara novas barreiras ambientais e de rastreabilidade que entram em vigor no próximo ano. O Brasil precisará de articulação fina para não perder espaço.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos trimestres: a intensidade do El Niño entre dezembro e fevereiro, a trajetória da Selic nas reuniões do Copom e a velocidade de implementação do novo marco do seguro rural. Se duas delas forem desfavoráveis, o governo terá de escolher entre subsidiar o produtor ou segurar a inflação de alimentos. A história de 2006 sugere que a conta, no fim, sempre chega para a sociedade.