O dólar fechou esta segunda-feira (26) com alta de 8,41%, cotado a R$ 5,409, registrando o salto diário mais violento desde janeiro de 1999. Paralelamente, o Ibovespa despencou 13,43%, aos 177.539 pontos, forçando a B3 a acionar o circuit breaker pela primeira vez desde o auge da pandemia. A pergunta que fica: estamos diante de um ajuste de rota ou de uma mudança estrutural de prêmio de risco?
O dia em que a aposta majoritária ruiu
O pregão funcionou como uma liquidação forçada. Durante semanas, o mercado precificou a vitória do candidato adversário e a manutenção de um ajuste fiscal rigoroso. O resultado das urnas inverteu essa tese em segundos.
Não foi apenas a moeda americana que assustou. A Bolsa devolveu aos investidores o patamar de junho, apagando meses de ganhos. O mecanismo de interrupção temporária das negociações — acionado quando a queda supera 10% — serviu como um freio de emergência, mas não conteve a realização de lucros e o reposicionamento de carteiras.
Por que o medo fiscal dita o preço dos ativos agora
A leitura predominante entre gestores e bancos globais é clara: a continuidade do governo petista eleva a probabilidade de expansão de gastos sem contrapartida de receita. Isso pressiona a curva de juros futuros, encarece o crédito para empresas e comprime a avaliação das ações.
O movimento não é apenas especulativo. O JP Morgan rebaixou a recomendação do real e dos títulos públicos brasileiros de “overweight” para “marketweight”. Na prática, o sinal é de neutralidade: o banco não vê mais atratividade excepcional no risco Brasil frente aos pares emergentes.
- Dólar: +8,41% (maior alta diária em 24 anos);
- Ibovespa: -13,43% (maior tombo desde março de 2020);
- Juros futuros: abertura forte nas taxas longas, precificando Selic mais alta por mais tempo;
- Circuit breaker: acionado no início da tarde, paralisando ações, derivativos e renda fixa privada.
O reverso da euforia do primeiro turno
O contraste com o dia seguinte à primeira votação é didático. Naquela ocasião, a Bolsa subiu 7,70% e renovou máximas históricas nominais, enquanto o dólar caiu 4,11% — a maior queda diária desde 2018. O mercado “comprou” a narrativa de austeridade e “vendeu” a de expansão fiscal.
Agora, a assimetria cobra a fatura. Quem ficou posicionado para o cenário otimista precisou desmontar posições a qualquer preço, ampliando a volatilidade. Segundo Rebecca Nossig, estrategista da Nomad, o “descompasso de expectativas” gerou um movimento generalizado de liquidação, não restrito a um setor específico.
O que separa o ruído da tendência nos próximos meses
Analistas convergem em um ponto: a consolidação desse choque depende 100% das primeiras sinalizações da equipe econômica. João Daronco, da Suno Research, resume: “A depender de como o vencedor conduzir a política fiscal, podemos ter uma reversão das expectativas iniciais”.
Ou seja, o prêmio de risco atual reflete incerteza, não necessariamente um destino traçado. A nomeação do ministro da Fazenda, as regras do novo arcabouço fiscal e a tramitação do Orçamento de 2024 serão os gatilhos definitivos para definir se o dólar estabiliza acima de R$ 5,40 ou se abre espaço para correção.
O que observar daqui para frente
Mantenha o radar ligado em três variáveis de curto prazo: a comunicação oficial sobre metas de resultado primário, a reação das agências de rating ao enquadramento fiscal proposto e o fluxo de capital externo na B3. Se o discurso pragmático superar a retórica expansionista nas primeiras semanas, parte do prêmio de risco embutido hoje pode ser devolvido. Caso contrário, a volatilidade de hoje vira a nova normalidade.
