Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno e assume em janeiro de 2027 para um mandato até 2030. A vitória, porém, veio com uma cobrança imediata do establishment econômico: ajuste fiscal, previsibilidade e segurança jurídica são condições inegociáveis para manter o nível de investimento.
O primeiro teste de fogo não tarda. Promessas de campanha — como tarifa zero no transporte público nos fins de semana, expansão do Pé-de-Meia e perdão de dívidas de MEIs — somam pelo menos R$ 53,6 bilhões no Orçamento de 2027, segundo levantamento da Folha. A conta assusta quem acompanha as contas públicas.
O diagnóstico: “Herança insustentável” e risco de recessão
Para o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, feita a virada política, é hora de “virar a economia”. A visão é compartilhada por Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Jubarte Capital. Ele alerta que Lula herda do próprio governo uma situação fiscal “absolutamente insustentável”, no curto e no longo prazo.
Sem ajuste relevante, a projeção é clara: recessão “bastante razoável” já no próximo ano. Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, reforça que o reequilíbrio das contas é o ponto de partida, embora veja na democracia a possibilidade de construção.
O sinal que o mercado espera: o nome da Fazenda
A ansiedade agora gira em torno do anúncio do novo ministro da Fazenda. A escolha funcionará como bússola para a trajetória das despesas. O CEO da consultoria Zag Work, ex-presidente da Anfavea e ex-vice da Ford na América do Sul, classifica a virada como “surpreendente e incontestável”, mas avisa: o Congresso continua menos alinhado à visão do Planalto, e os ajustes necessários costumam ser impopulares.
Daniel Wainstein, co-CEO da Seneca Evercore, aponta a Previdência como prioridade número um. O gasto previsto com o INSS no orçamento de 2026 beira R$ 1,1 trilhão. “Adiar o ajuste compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo”, resume.
Juros altos e o “Custo Brasil” na mira dos setores
Flávio Augusto da Silva, fundador da Wise Up, vê risco de juros permanencendo acima de dois dígitos, dificultando a vida de empresas ainda endividadas pela pandemia. Do lado da oferta, os pleitos setoriais convergem para três eixos:
- Segurança jurídica e estabilidade regulatória (Murilo Barbosa, ATP / Breno Masi, iFood);
- Simplificação tributária e infraestrutura (Augusto Salomon, Sindicom / Ana Celina Bueno, Fenapro);
- Crédito acessível e juros baixos para impulsionar consumo e mobilidade (Renata Herani, Technobank).
A bomba-relógio da escala 6×1
Um ponto sensível une varejo e serviços: a regulamentação do fim da escala 6×1. Paulo Solmucci, presidente da Abrasel, é direto: se a mudança não for revista, pode levar o país à recessão. O setor pede que o debate não atropele a viabilidade financeira das empresas, especialmente as de menor porte.
Breno Masi, do iFood, resume o sentimento de quem emprega: “Não podemos continuar tratando quem empreende como se fosse parte do problema”. A demanda por previsibilidade não é ideológica; é operacional.
O que observar nos primeiros 100 dias
O cenário desenha um teste de fogo imediato. A nomeação da equipe econômica, o envio de medidas de contenção de despesas obrigatórias e a articulação política para aprová-las no Congresso ditarão o ritmo de 2027. Se o sinal for de continuidade do expansionismo fiscal, a aposta consensual dos ouvidos é de juros altos, dólar pressionado e investimento privado retraído. Se houver ajuste crível, a janela para queda de juros e retomada do crédito se abre — mas o relógio corre contra a paciência do mercado.
