Economia

O segredo que ninguém conta: por que restaurantes de shopping trocam a 6×1 pela 12×36 agora

Restaurante em shopping de São Paulo com funcionários na nova escala 12x36
Restaurantes de shoppings paulistas adotam regime 12x36 antes da lei reduzir jornada semanal

Donos de restaurantes em shoppings centers de São Paulo estão mudando a escala de trabalho antes da lei obrigar. A adoção do regime 12×36 — 12 horas de trabalho por 36 de folga — cresceu nos últimos dois meses, justamente quando o debate sobre o fim da jornada 6×1 esquentou. A estratégia antecipa a Emenda Constitucional 141, que reduz a semana para 42 horas em dezembro e 40 horas daqui a um ano.

Monique Moraes, franqueada da Mr. Cheney no Shopping Center 3, resume a lógica: com a nova escala, o funcionário trabalha cerca de 15 dias por mês. “Acaba sendo melhor para o funcionário”, diz ela, que planeja contratar mais uma atendente para fechar a escala. Mas a conta não fecha sozinha.

O racha entre varejo e alimentação

Enquanto lojas de varejo preferem o modelo 5×2 (duas folgas semanais) para manter comissões de vendas ativas, restaurantes veem no 12×36 um encaixe natural. A convenção coletiva da categoria já prevê esse regime, o que dá segurança jurídica imediata. Dados da Abrasel mostram que 30% dos restaurantes em shoppings já operam assim, contra apenas 10% do setor total.

A pizzaria Spedini, no mesmo Center 3, tentou o 5×2 em abril. Durou pouco. Baixas na equipe forçaram a volta atrás. Agora, o plano é híbrido: parte no 5×2, parte testando o 12×36. O dono precisa de dois a três novos contratados para viabilizar a experiência.

Vantagens que escondem armadilhas

O presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, lista o ganho logístico: gasto menor com vale-transporte, já que o deslocamento cai pela metade. Mas alerta para dois pontos críticos:

  • Proibição de horas extras: a jornada de 12 horas já satura o limite diário.
  • Risco de falta: se um funcionário falta, a operação perde dois turnos de uma só vez. Repor vira emergência.

Além disso, a matemática semanal trava. No 12×36, a média semanal oscila entre 36 e 48 horas. A nova lei exige teto de 42 horas (depois 40). “Vai ser preciso mudar a norma para trabalhar com média mensal”, admite Solmucci. Isso exige negociação em convenção coletiva — tempo e custo político.

O que diz a Justiça do Trabalho

Para o professor Ricardo Calcini (Insper), o artigo 59-A da CLT permite a adoção por acordo individual, desde que não haja vedação em norma coletiva. “Basta comunicar e o funcionário concordar”, explica. Mas o advogado Antonio Galvão Peres (USP) vê nuvens no horizonte.

Peres aponta contradições na redação da emenda que podem gerar disputas judiciais. A dúvida central: as 12 horas incluem ou não o intervalo de refeição? Se conta como 13 horas, a jornada noturna (hora de 52 minutos) embaralha ainda mais a conta. “Ninguém sabe a resposta ainda”, sentencia.

Saída negociada ou judicialização?

O sindicato da categoria (Sinthoresp), que representa 300 mil trabalhadores em 33 municípios, defende que o 12×36 é viável nas duas fases da lei (42h e 40h). A sugestão: escalas mistas, como dois dias de 12h e um de 10h. Mas exige contrapartidas — plano odontológico, cesta básica — e formalização via entidade sindical.

Rubens Fernandes da Silva, vice-presidente do sindicato, confirma: a procura de empresários pelo modelo disparou. “Há empresas que terão de prever mudanças nos horários ou no quadro de funcionários.” A entidade planeja rodadas de negociação com advogados e magistrados para ajustar a convenção antes que o custo extra pressione as margens.

O que observar daqui para frente

O cenário desenha três frentes de batalha simultâneas: a adequação matemática da jornada semanal média, a definição judicial sobre intervalos e hora noturna, e a negociação coletiva de benefícios compensatórios. Quem antecipou a mudança ganha tempo de adaptação operacional, mas carrega o risco de ter que refazer a conta se a jurisprudência fechar a porta para a média mensal. O Natal de 2025 será o primeiro teste de fogo real para esses novos escalonamentos.