Cultura

Metade do país acordou no “fim do mundo”: a lição de 410 d.C. para hoje

Brasil dividido ao meio: eleitores comemoram e choram sob céu tempestuoso, simbolizando polarização extrema pós-eleição
A polarização eleitoral racha o país ao meio, deixando metade na sensação de fim do mundo.

Esta análise foi escrita antes de o resultado do segundo turno ser conhecido, numa sexta-feira onde o futuro era incerto. Quando o texto chega ao leitor, o vencedor já está definido, mas para quase metade do eleitorado a sensação permanece idêntica: a de um apocalipse pessoal. A pesquisa revela uma simetria brutal — a rejeição mútua beira os 50% — e um quinto dos aptos simplesmente não compareceu.

Como governar (ou ser governado) por quem se considera “pior”? A resposta não está nas urnas, mas num sermão proferido há 1.600 anos.

Quando Roma caiu, o mundo não acabou

Em 24 de agosto de 410, os visigodos invadiram a Cidade Eterna após 800 anos de muralhas invictas. São Jerônimo, testemunha ocular, decretou: “O mundo pereceu em uma cidade”. A polarização era imediata: pagãos culpavam cristãos, cristãos culpavam pagãos. A culpa do “fim do mundo” sempre recai sobre o outro.

Foi nesse caos que Santo Agostinho produziu o “Sermão sobre a Queda de Roma”. Seu diagnóstico: quem confunde a própria cidade com o mundo vive a derrota como apocalipse. A pergunta que ecoa até hoje: “O que é Roma, senão os romanos?”. E, por extensão, o que é o Brasil senão os brasileiros?

As duas cidades que habitam o mesmo território

Agostinho ensina que toda sociedade é, na verdade, duas sobrepostas. Uma erguida no amor egoísta a si mesmo; a outra, no amor ao próximo. Impérios e governos são frágeis por natureza — suas quedas não são o fim, mas renovações necessárias. Nas palavras do bispo de Hipona: “Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos”.

  • 52,7% dos brasileiros já se afastaram de alguém por divergência política (dado de pesquisa citado na coluna original).
  • A “cidade terrena” se fragmenta quando o ódio vira identidade.
  • A “cidade celeste” se constrói no que une, não no que separa.

O perigo de amaldiçoar e desistir

Há dois caminhos pós-derrota. Um rompe pontes, alimenta o ressentimento e transforma o adversário em inimigo existencial. O outro reconhece a dor — o choro é legítimo — mas recusa o derrotismo. Agostinho evoca Jó: perdeu tudo, mas rejeitou o conselho de “amaldiçoar a Deus e morrer”.

O filósofo português Agostinho da Silva, radicado na Bahia, resumiu a tarefa prática em plena Segunda Guerra: buscar em cada pessoa “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e abordável, para que se lancem as estradas da paz”.

O que observar daqui para frente

O papa Leão XIV, primeiro pontífice agostiniano da história, costuma repetir: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”. A responsabilidade pelo que vem a seguir não pertence ao palácio do Planalto, mas à conduta de cada um nos próximos dias.

O termômetro real da democracia não é a posse, mas a disposição de reconstruir pontes que as urnas queimaram. Quem leu até aqui já sabe: o mundo não acabou na sexta-feira. A cidade continua nas pessoas — e o próximo capítulo depende do que cada brasileiro escolher amar.