A colunista Lygia Maria endereça a principal dúvida do empresariado brasileiro: quais sinais o novo ciclo político deve emitir para destravar investimentos. A resposta curta é previsibilidade, mas o caminho para alcançá-la passa por escolhas duras nas primeiras semanas de mandato.
Não há espaço para improvisação. Investidores — do pequeno industrial ao grande fundo — monitoram três variáveis que ditam o custo de capital no país nos próximos quatro anos.
O tripé que define a confiança
A âncora fiscal continua sendo o termômetro número um. Sem uma regra crível de controle de despesas, a taxa de juros real permanece elevada, secando crédito para capital de giro e expansão. A sinalização do Ministério da Fazenda nas primeiras medidas provisórias será lida como contrato.
Em segundo lugar, a reforma tributária sai do papel para a regulamentação. A transição do IPI, ICMS e ISS para o IVA dual exige calendário claro e alíquotas de referência definidas. Atrasos aqui geram insegurança jurídica imediata para cadeias de suprimento.
O terceiro pilar é a agenda regulatória. Agências independentes, marco legal do saneamento e licenciamento ambiental funcionam como “regras do jogo”. Mudanças bruscas nesses marcos assustam mais que a carga tributária alta.
Impacto direto no caixa das empresas
Para o gestor que fecha o balanço este mês, a tradução prática desses eixos aparece em três linhas:
- Custo de dívida: Selic alta por mais tempo encarece rolagem de curto prazo.
- Planejamento tributário: Dupla tributação na transição do IVA exige provisões contábeis extras.
- Decisão de investimento (Capex): Projetos acima de R$ 50 milhões travam à espera de sinal verde regulatório.
Setores intensivos em capital — infraestrutura, energia, logística — são os primeiros a sentir. Pequenos negócios sofrem no crédito de giro, mas ganham se a simplificação do Simples Nacional for preservada na reforma.
O que observar daqui para frente
O primeiro trimestre do mandato funciona como “período de graça” para aprovação de medidas estruturantes no Congresso. A janela fecha com as eleições municipais. Acompanhe a tramitação do arcabouço fiscal e dos projetos de lei complementares do IVA: são eles que ditarão o planejamento estratégico de 2025 a 2028.
Enquanto o texto final não vem, a gestão de caixa conservadora e a revisão de contratos de longo prazo indexados à inflação oficial seguem como as únicas proteções reais sob controle do empresário.
