O Brasil amanheceu partido ao meio. Para quase metade do eleitorado, a semana começa com gosto de fim do mundo. A pergunta que fica é: como reconstruir pontes quando 52,7% das pessoas já cortaram laços por causa de política?
A sensação de apocalipse não é nova. A história registra um paralelo preciso: em 410 d.C., Roma caiu após oito séculos invicta. São Jerônimo decretou: “O mundo pereceu em uma cidade”. A polarização da época colocava pagãos contra cristãos; hoje, o inimigo mora no mesmo quarteirão.
O custo invisível da ruptura
O impacto vai além do debate ideológico. Quando mais da metade da população admite ter se afastado de alguém por divergências políticas, o capital social — ativo essencial para negócios, inovação e governança — se erosiona. Redes de confiança levam anos para se formar e segundos para se romper.
Empresários e investidores sabem: ambientes tóxicos travam decisões, assustam capital e paralisam projetos de longo prazo. O “nós contra eles” não é apenas um problema moral; é um entrave econômico mensurável.
O contra-ataque de Santo Agostinho
Foi no caos da queda de Roma que Santo Agostinho escreveu o “Sermão sobre a Queda de Roma”. Sua tese central derruba o derrotismo: quem confunde a própria cidade com o mundo vive cada derrota como apocalipse. A saída não está no outro, mas no espelho.
Agostinho propunha uma distinção radical que serve como bússola estratégica:
- Cidade terrena: construída no amor egoísta, frágil e fadada a ruir.
- Cidade celeste: erguida no amor ao próximo e ao bem comum, resiliente por natureza.
Nas palavras dele: “Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos”. A queda, portanto, não é o fim — é a revelação do que era falso e a chance de erguer o que é sólido.
Da reflexão à prática: Jó e Agostinho da Silva
A responsabilidade pós-derrota é o tema central. Agostinho invoca Jó: perdeu tudo, mas recusou amaldiçoar e desistir. A resiliência não é passividade; é a recusa ativa de deixar o caos ditar o caráter.
Séculos depois, o português Agostinho da Silva, radicado na Bahia, ecoou o mesmo princípio em plena Segunda Guerra. Ele pediu que buscássemos em cada pessoa “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”.
O que observar daqui para frente
Um povo não se define pelo que odeia, mas pelo que ama. Ódio é estratégia ruim: não atrai talento, não fecha contratos e não sustenta nações. Os próximos meses vão separar quem usa a divergência para isolar-se de quem a usa para mapear convergências.
Para o líder empresarial, o sinal de alerta é claro: monitore a temperatura das suas redes. A capacidade de manter canais abertos com o “lado oposto” será o diferencial entre quem navega a turbulência e quem naufraga nela. A história não perdoa os que confundem uma batalha perdida com o fim da guerra.
