Economia

Fim da escala 6×1 chega em dezembro e turismo corre contra o relógio…

Trabalhadores de hotelaria e gastronomia pressionados pelo fim da escala 6x1 na alta temporada de verão
Setor de turismo corre contra o tempo para adaptar turnos antes do verão com fim da escala 6x1 em dezembro.

A partir de meados de dezembro, a escala 6×1 deixa de existir — justamente quando a alta temporada de verão esquenta a demanda por hotéis, bares e restaurantes. O setor, que concentra os maiores percentuais desse regime no país, precisa reorganizar turnos, contratar ou enxugar serviços em tempo recorde. O que está em jogo não é apenas a folha de pagamento, mas a própria experiência do consumidor nas férias.

Dados do Ministério do Trabalho compilados pela 4intelligence mostram por que o turismo sente o baque com mais força: 53,2% dos empregos formais no transporte aéreo, 52% no alojamento e 47,1% na alimentação operavam em 6×1 no fim de 2025. Em outras palavras, metade da mão de obra que faz a engrenagem girar nas férias terá a jornada alterada de uma só vez.

O choque imediato nos custos e a conta que pode chegar ao cliente

A lógica é direta: menos dias de trabalho por semana por funcionário exige mais gente para cobrir a mesma operação. Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO, resume o dilema: “Nosso setor não é robotizado. Depende de mão de obra intensiva”. A saída imediata — contratar — pressiona a folha e, segundo Fernando Blower, da ANR e do SindRio, tende a ser repassada nos preços.

Mas nem todo empresário vê apenas aumento de custo. Antonio Rodrigues, dono da rede Belmonte (30 unidades, 1.100 funcionários), classifica a adaptação como “fácil para quem tem boa gestão”. Sua estratégia: banco de horas, escalas desenhadas conforme a demanda de cada turno e, se preciso, contratação pontual. “Vida que segue”, diz.

Simplificação de processos: o que muda na prática para o hóspede

Hotéis já testam mudanças operacionais para absorver a nova regra sem inflar a folha. O menu de opções inclui:

  • Substituir serviço à la carte por bufês, reduzindo a necessidade de garçons;
  • Suspender arrumação de quartos aos domingos, exceto para novos check-ins;
  • Automatizar check-in e check-out, liberando recepcionistas para outras frentes.

O resort Le Canton, em Teresópolis, antecipou os testes com escalas 5×2 e 12×36. A CEO Mônica Paixão previa impacto de 20% na folha; após ajustes, projeta no máximo 8%. “Não estou muito preocupada como já estive. É uma readaptação que faz parte”, afirma. Ela pondera, porém: pousadas menores, sem escala para diluir custos, terão caminho mais íngreme.

Jornada semanal também encolhe: 44h → 42h → 40h

Além do fim da 6×1, a legislação aprovada pelo Congresso prevê redução escalonada da jornada máxima sem corte salarial. Desde já, o teto cai de 44 para 42 horas semanais. Em dezembro de 2027, chega a 40 horas. Negociações coletivas poderão manter regimes diferenciados em atividades específicas, mas a regra geral está posta.

Para bares e restaurantes, a combinação das duas mudanças abre um leque de respostas heterogêneas. Blower lista: redução de dias ou horários de funcionamento, contratação, remanejamento de turnos conforme picos de movimento. “Em vez de ter todo mundo no mesmo horário, como se fosse uma fábrica, você vai montando as escalas conforme as demandas”, explica.

O que observar daqui para a frente

O verão de 2024/2025 será o primeiro teste real em larga escala. Três variáveis definirão se o turismo absorve a mudança sem solavancos: a velocidade de contratação e treinamento de mão de obra sazonal, a aceitação do consumidor a eventuais altas de preço ou redução de serviços (como limpeza de quarto aos domingos) e a capacidade de pequenos empreendimentos acessarem tecnologia e assessoria para redesenhar processos. Empresários de grande porte já sinalizam que o impacto financeiro tende a ser menor que o temido inicialmente — mas a desigualdade de porte entre players do setor promete ditar ritmos diferentes de adaptação nos próximos meses.