Os Correios fecharam contrato para adquirir 63.815 microcomputadores de altíssima performance — 32 GB de RAM DDR5 e SSD NVMe de 480 GB — enquanto a estatal amarga prejuízo de R$ 5,5 bilhões só no primeiro semestre. O valor total da compra foi classificado como sigiloso pela própria empresa. A Controladoria-Geral da União (CGU) viu risco de desperdício e abriu análise.
O edital prevê abertura das propostas para 26 de junho de 2026. Até lá, a conta segue oculta sob a Lei das Estatais (13.303/2016). Mas os números que já vazam desenham um cenário que todo contribuinte e investidor deveria acompanhar de perto.
Por que a configuração assusta os auditores
O relatório da CGU é direto: não há demonstração objetiva de que todos os 63,8 mil postos de trabalho exijam máquinas desse calibre. A especificação mínima iguala a rede inteira a estações de trabalho para edição de vídeo, modelagem 3D ou ciência de dados.
Em compras de volume, cada real a mais por unidade vira milhões no total. A Controladoria destaca que a opção mais onerosa exige “justificativa técnica robusta e detalhada” — algo que, segundo o órgão, não foi apresentado de forma convincente nos documentos de planejamento.
- Memória: 32 GB DDR5 (padrão corporativo costuma ser 8 a 16 GB)
- Armazenamento: SSD NVMe 480 GB+ (muitos setores rodam 100% na nuvem)
- Quantidade: 63.815 unidades via Sistema de Registro de Preços
- Valor estimado: “Informações suprimidas por solicitação dos Correios”
O buraco financeiro por trás da compra
Enquanto o edital avança, a saúde da empresa deteriora. O primeiro semestre fechou com rombo de R$ 5,5 bilhões. Para manter as portas abertas, a estatal recorreu a cerca de R$ 20 bilhões em empréstimos e recebeu aporte direto de R$ 6 bilhões da União.
Essa injeção de caixa público torna a transparência na aquisição ainda mais sensível. Cada centavo economizado na frota de TI poderia reduzir a necessidade de novos aportes ou alongar a sobrevida financeira da companhia.
O que a CGU fez — e o que não fez
Importante separar: a análise saiu de um sistema automatizado de monitoramento de licitações, não de uma auditoria de campo com equipe designada. Os apontamentos são genéricos e baseiam-se apenas nos documentos públicos do pregão eletrônico nº 26000215/2026.
Isso significa que não há, até o momento, conclusão sobre irregularidade, superfaturamento ou direcionamento. O que existe é um alerta técnico: a especificação parece desproporcional à necessidade declarada e o sigilo impede o controle social do gasto.
Cenários para os próximos meses
Três movimentos podem mudar o rumo desta história antes da abertura dos envelopes em junho de 2026:
- Revisão do edital: pressão da CGU e do TCU pode forçar a criação de lotes com configurações diferenciadas por perfil de uso
- Quebra do sigilo: Ministério Público ou Tribunal de Contas podem determinar a divulgação do valor estimado
- Redução de quantidade: se a estatal revisar o plano de modernização à luz do caixa apertado
O que observar daqui para frente
Acompanhe o Diário Oficial e o portal Licitações-e (processo 1093960). Qualquer retificação no edital — mudança de specs, fracionamento em lotes ou divulgação do valor — será o termômetro real de se a estatal vai priorizar eficiência ou manter a compra blindada. Para quem gere recursos públicos ou avalia risco soberano, esse caso virou estudo de caso obrigatório de governança em estatais deficitárias.
