Economia

O abismo fiscal que Lula e Flávio Dino ignoram na corrida eleitoral

Ilustração de abismo fiscal com Lula e Flávio Dino ignorando buraco orçamentário na corrida eleitoral municipal
Governo acelera gastos acima do teto para pavimentar vitórias municipais, ignorando risco de dívida insustentável.

A menos de dois anos da disputa municipal, a dupla Planalto-Justiça acelera gastos que colidem frontalmente com as metas do novo arcabouço. O resultado é uma conta que chega primeiro para o contribuinte.

A estratégia é clara: usar a máquina federal para pavimentar vitórias nos municípios-chave. Mas cada real prometido acima do teto empurra a dívida pública para um patamar que o mercado já precifica como insustentável.

O xadrez das promessas e o buraco no orçamento

O governo opera em duas frentes simultâneas. De um lado, o presidente libera emendas, reajustes e programas sociais turbinados. Do outro, o ministro da Justiça articula palanques e costura alianças regionais com a mesma intensidade de um coordenador de campanha.

Essa coordenação política tem preço. O Ministério da Fazenda, guardião das contas, assiste à expansão de despesas obrigatórias — como a recomposição do salário mínimo acima da inflação e a ampliação do Bolsa Família — sem a contrapartida de receitas estruturais.

O Congresso, ciente do momento eleitoral, aproveita para aprovar pautas-bomba. A desoneração da folha de municípios e a prorrogação de benefícios setoriais somam bilhões ao rombo projetado para 2024 e 2025.

Os números que o discurso tenta esconder

Não há mágica contábil que feche a equação. As projeções oficiais já admitem dificuldade para cumprir a meta de déficit zero este ano. Para 2025, a promessa de superávit de 0,5% do PIB depende de arrecadação recorde e de vetos que o Planalto evita fazer por medo do desgaste político.

  • Déficit primário projetado 2024: até 0,25% do PIB (banda inferior da meta).
  • Gasto com pessoal e encargos: cresce acima da regra do arcabouço (limite de 2,5% real ao ano).
  • Dívida bruta/PIB: trajetória de alta contínua, superando 78% em 2024.

Enquanto a equipe econômica negocia compensações pontuais — como a taxação de fundos exclusivos e offshores —, o volume de novas despesas permanentes supera o ganho temporário dessas medidas.

O efeito dominó nos juros e no investimento

O mercado não espera a eleição para reagir. A curva de juros longos já embute prêmio de risco fiscal elevado. Isso encarece o financiamento da dívida pública e contamina o custo de capital para empresas.

Para o empresário, o sinal é de cautela. Investimentos de longo prazo — infraestrutura, inovação, expansão de capacidade — ficam paralisados diante da incerteza sobre a trajetória da Selic e da carga tributária futura.

O dólar, sensível ao risco soberano, pressiona a inflação via importados. O Banco Central, por sua vez, mantém a política monetária restritiva por mais tempo, freando a atividade justamente no ano em que o governo precisa de “entregas” para mostrar nas urnas.

O que o pequeno e médio negócio sente na pele

Não é só macroeconomia. O varejo vê o consumo das classes C e D estancar. A indústria sente o crédito caro e a demanda fraca. O setor de serviços, motor de emprego, convive com inadimplência alta das famílias.

Enquanto o Planalto distribui recursos para prefeitos aliados — asfaltando ruas e reformando postos de saúde em ano eleitoral —, a União posterga repasses obrigatórios e trava convênios com governos de oposição. A federação vira moeda de troca.

Cenários para o segundo semestre: o que observar

A novela do arcabouço terá capítulos decisivos nos próximos meses. Três variáveis ditam o rumo:

  • Vetos presidenciais ao Orçamento 2025: Haddad pressiona por cortes; Lula resiste para não melindrar base.
  • Reforma Tributária (regulamentação): a alíquota padrão do IVA dual definirá se haverá espaço fiscal real ou apenas ilusão contábil.
  • Resultado das urnas em outubro: vitória ampla da base governista tende a relaxar a disciplina fiscal; revés força ajuste tardio e mais dolorido.

Para quem gere negócios, a ordem é preservar caixa, alongar dívidas e evitar alavancagem. A promessa de “festa eleitoral” costuma cobrar a conta no ano seguinte, sempre com juros.

Daqui para frente: monitore o Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas. É ali, nos anexos técnicos, que a verdadeira intenção do governo aparece — longe dos palanques e dos discursos.