O presidente eleito neste domingo (25) herdará a missão de nomear o ministro da Fazenda sob uma nuvem de desconfiança sem precedentes. As promessas de campanha de ambos os lados inflaram o gasto público e assustaram o mercado. A dúvida que fica: quem terá estatura para reverter esse cenário?
Promessas que assustam o mercado
No exercício do mandato, Lula (PT) prorrogou subsídios a combustíveis, perdoou dívidas de MEIs e acenou com um Pix de R$ 5.000 para empreendedores a partir de 2027. A lista inclui ainda a ampliação do Pé-de-Meia para universitários e tarifa zero no transporte urbano aos fins de semana — medidas que pressionam o Orçamento sem fonte de custeio definida.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro (PL), inicialmente visto como nome da austeridade, recuou em pautas de corte. Prometeu manter ganhos reais para aposentados, rejeitou desvincular benefícios do salário mínimo e abraçou a tarifa zero. O resultado prático: ambos os candidatos fecharam as portas para as economias mais estruturais que economistas consideram necessárias.
O impacto direto no seu bolso e nos negócios
Sem sinalização clara de ajuste, a reação imediata tende a ser a alta do dólar e dos juros futuros. Para o empresário, isso significa crédito mais caro e planejamento estratégico nebuloso. Para o investidor, a curva de juros precifica risco fiscal elevado, reduzindo a atratividade de ativos de renda fixa e pressionando a bolsa.
O placar final das urnas ditará a intensidade do aceno ao mercado. Uma vitória apertada pode forçar anúncio rápido de um nome “técnico” para acalmar os agentes. Uma diferença maior pode dar margem a escolhas mais políticas, adiando o choque de credibilidade.
Os cotados para acalmar (ou não) os investidores
Caso Flávio vença, o xadrez envolve nomes com perfis distintos:
- Roberto Campos Neto: ex-presidente do BC, tem aval de Tarcísio de Freitas e do mercado. A dúvida é se deixa o cargo de chefe global de políticas públicas do Nubank sem garantia de autonomia para cortar gastos.
- Marcelo Kayath: financista (ex-Credit Suisse), próximo a Eduardo Bolsonaro e ao mercado financeiro tradicional.
- Adolfo Sachsida: coordenador econômico da campanha, preferido de Jair Bolsonaro, mas com resistência interna.
- Mansueto Almeida: ex-Tesouro, hoje no BTG Pactual. Aliados veem resistência da família Bolsonaro a André Esteves.
- Rogério Marinho: senador e coordenador da campanha, “curinga” que pode ir para Fazenda ou Casa Civil.
No cenário de reeleição de Lula, a indefinição é maior. O presidente ainda não dedicou tempo à transição, mas circulam nomes:
- Gabriel Galípolo: atual presidente do BC, “menino de ouro” de Lula. Visto pelo mercado como o nome com maior capacidade de choque de credibilidade fiscal.
- Dario Durigan: ministro interino, permanência considerada incerta.
- Camilo Santana: senador, ganha espaço na coordenação de campanha.
- Renan Filho: senador, bem avaliado em Transportes, já cotado para Planejamento em 2022.
- Rafael Fonteles: governador reeleito do Piauí, ex-secretário de Fazenda estadual. Aliados temem “queimá-lo” num cargo de alto desgaste.
O fator Receita Federal no governo Flávio
Se Flávio vencer, o comando da Receita vira ponto sensível. O órgão conduz investigações com PF e MP, incluindo casos ligados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro — que financiou filme sobre Jair Bolsonaro a pedido de Flávio. O candidato é investigado no STF (inquérito “Dark Horse”) e alvo de pedido de inquérito por lavagem de dinheiro. No governo anterior, Jair Bolsonaro promoveu ingerência na Receita para blindar Flávio de investigação sobre “rachadinha”, resultando em anulamento de provas pelo STJ em 2021. A escolha do chefe da Receita será termômetro de autonomia institucional.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o rumo nos primeiros 100 dias: (1) a velocidade do anúncio do ministro — quanto mais rápido, maior a tentativa de ancorar expectativas; (2) o primeiro pacote de medidas fiscais concretas, não promessas; (3) a relação do novo ministro com o Banco Central, especialmente se Galípolo ou Campos Neto forem os escolhidos. O mercado dará o veredito nas curvas de juros e no câmbio nas primeiras semanas de 2027. Quem ler apenas as manchetes perderá o timing; o sinal real virá dos atos, não dos discursos.
