Economia

O modelo que Flávio defendeu: Por que 1,2 mi no UK querem fugir dele

Trabalhador em uniforme de delivery olha para smartphone com expressão de incerteza, simbolizando contratos de zero hora no Reino Unido
Modelo britânico de contratos sem horas garantidas atinge 1,23 milhão de trabalhadores e inspira debate no Brasil

O Reino Unido tem 1,23 milhão de pessoas presas a contratos sem horas garantidas, e o Brasil debate importar esse modelo. A experiência britânica mostra que a “liberdade” de escolher a jornada costuma vir acompanhada de renda volátil e poder de barganha quase nulo para o trabalhador.

No segundo trimestre de 2026, 3,6% da força de trabalho britânica sobrevivia no regime de “zero hora”. A maioria concentra-se em hotelaria, alimentação e logística — setores que também lideram a informalidade no Brasil.

O retrato da precariedade em números

Dados do ONS (Office for National Statistics) revelam a anatomia desse contingente:

  • Perfil: 12,7% têm entre 16 e 24 anos;
  • Funções: 42% ocupam postos básicos (limpeza, reposição, apoio de cozinha);
  • Renda: 11,1% ganham abaixo de £ 11,97/hora (cerca de R$ 80), enquanto o piso legal para maiores de 21 anos é £ 12,71.

O crescimento é持续: o contingente não cai abaixo de 1 milhão desde 2020, saltando de 900 mil em 2016 para o pico atual.

O paralelo brasileiro que ninguém explica

A PEC 12/2026, articulada pelo senador Rogério Marinho e defendida por Flávio Bolsonaro na campanha, propunha um regime optativo por horas trabalhadas. A semelhança com o contrato intermitente (Lei 13.467/2017) é imediata, mas a versão britânica é mais radical: não há horas mínimas garantidas nem procedimento formal de convocação.

Enquanto o intermitente brasileiro exige aviso prévio e pagamento por período de disponibilidade, o “zero hora” britânico transfere 100% do risco de ociosidade para o empregado. O resultado? Quatro em cada dez trabalhadores nesse regime dizem não conseguir planejar despesas básicas.

O estudo que expõe a armadilha da flexibilidade

Pesquisa da Work Foundation (Universidade de Lancaster), publicada em agosto de 2026, acompanhou trabalhadores dependentes dessa renda por uma semana. O denominador comum não era a carga horária, mas a impossibilidade de planejar a vida.

Um assistente de eventos relatou manter quatro contratos simultâneos há anos, à espera de uma vaga efetiva prometida no primeiro — que nunca surgiu. “Não me importo com horários flexíveis, mas preciso de renda estável e direitos”, resumiu.

O mundo já está corrigendo a rota

O Reino Unido é exceção, não regra. Outras economias desenvolvidas endureceram as regras recentemente:

  • Países Baixos: Parlamento aprovou fim dos contratos zero hora até 2028, substituindo por faixas de horas garantidas;
  • Austrália: Nova lei (ago/2024) criou via de transição para emprego permanente e piso salarial específico para casuais;
  • Irlanda: Desde 2018, proíbe contratos puramente variáveis e exige pagamento mínimo por convocação sem trabalho;
  • Nova Zelândia: Cláusulas de disponibilidade só valem com justificativa razoável, compensação financeira e horas garantidas.

O que o empresário e o investidor devem monitorar

Se o debate sobre jornada no Brasil avançar para modelos “à la carte”, três variáveis definirão o impacto no balanço das empresas:

  • Passivo trabalhista: Ausência de horas mínimas eleva risco de ações por tempo à disposição e danos morais;
  • Produtividade: Rotatividade alta em contratos instáveis corrói conhecimento tácito e aumenta custo de treinamento;
  • Regulação pendente: Projetos no Congresso podem impor aviso prévio de 28 dias e pagamento por turno cancelado — espelhando recomendações do estudo de Lancaster.

A lição britânica é clara: flexibilidade sem proteção de renda não gera empreendedorismo, gera trabalhador refém de múltiplos bicos. Para quem aloca capital ou gere gente, o sinal amarelo está aceso — o custo da instabilidade costuma aparecer no EBITDA bem antes de virar manchete.