A disputa pelo Planalto entrou na reta final transformada em leilão de benesses bilionárias. Quem vencer no domingo herda uma fatura que pode estourar o teto de gastos já em 2027. A dúvida não é se haverá ajuste, mas qual lado da conta vai pesar mais no bolso do contribuinte.
A conta que chega em 2027
O Ministério do Planejamento estima o impacto das medidas de Lula em R$ 53,6 bilhões no Orçamento do primeiro ano do próximo mandato. O mercado financeiro, porém, projeta um buraco de até R$ 82 bilhões. A XP Investimentos vai além: aponta necessidade de até R$ 83 bilhões só para 2027, comprimindo quase totalmente os gastos discricionários.
Já a Warren Investimentos calcula que a fatura de Lula chegue a R$ 43,6 bilhões no ano que vem, subindo para R$ 195,6 bilhões até 2030. A diferença nas projeções revela o grau de incerteza: ninguém sabe ao certo como as promessas sairão do papel.
O pacote de Lula: números e incertezas
O candidato do PT acionou um pacote estimado em R$ 290 bilhões nas últimas semanas. A lista inclui expansão do Desenrola, novo Pé-de-Meia universitário, subvenção a combustíveis, tarifa zero de ônibus nos fins de semana e até canetas emagrecedoras no SUS.
O item mais sensível é a manutenção do desconto nos combustíveis. A experiência de 2023 mostrou que retirar o benefício de uma só vez é politicamente explosivo. Isso empurra a conta para frente, pressionando o resultado primário em até R$ 30 bilhões, segundo a XP, exigindo cortes ou novas receitas imediatas.
A estratégia do silêncio: as apostas de Flávio
Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) proibiu assessores econômicos de falar. Sem detalhamento oficial, analistas precisam “ler o que não foi dito” para dimensionar o rombo. A lista de anúncios, porém, é extensa e cara.
- Congelamento de dívidas: até 6 meses para pessoas físicas e 1 ano para MPEs.
- Volta do Perse: isenção para eventos com custo estimado em R$ 25 bilhões/ano.
- Fim do split payment: mecanismo da reforma tributária que combate sonegação; sua extinção reduz arrecadação.
- Pedágio zero para motos, Pix cashback, atualização da tabela SUS e renegociação de Santas Casas.
Felipe Salto, da Warren, classifica o congelamento de dívidas como a “grande bomba” oculta. Sem regras claras, o risco de calote sistêmico ou custo fiscal indireto é altíssimo.
O populismo, segundo os especialistas
“O populismo fiscal é ecumênico”, resume Silvia Matos, do IBRE-FGV. Para ela, a recriação do Perse — extinto em 2025 por ineficiência — sinaliza um governo refém de setores organizados. O cenário de juros altos no Brasil e no exterior torna qualquer deslize no primário muito mais caro na rolagem da dívida.
Salto resume o pós-eleição: “Será preciso colocar a bola no chão e voltar às planilhas. O primeiro desafio é acertar o Orçamento de 2027”.
Duas bombas-relógio já plantadas
Independente do vencedor, dois fantasmas já assombram 2027. O primeiro é o “desmame” da subvenção ao diesel e gasolina: Lula não conseguiu zerar o benefício herdado de 2022; o próximo presidente enfrentará a mesma armadilha.
O segundo é a pressão pela aprovação do fim da escala 6×1. Empresários já sinalizam que exigirão contrapartidas fiscais para absorver o custo trabalhista, abrindo nova frente de renúncia de receita.
O que observar daqui para frente
O primeiro sinal virá na montagem da equipe econômica e no envio do PLOA 2027. Fique atento a três variáveis: se o split payment será de fato revogado (impacto direto na arrecadação), qual o desenho final do congelamento de dívidas (risco bancário) e a velocidade de retirada dos subsídios de combustível. A combinação dessas três respostas dirá se o ajuste começa no primeiro semestre ou se o mercado precifica um estouro de meta antes da posse.
