David Solomon acaba de anunciar meio bilhão de dólares em inteligência artificial, mas seu recado para donos de pequenos negócios surpreende: esqueçam os modelos mais caros e poderosos. O CEO do Goldman Sachs afirma que a maioria das empresas não precisa de “IA de fronteira” para crescer. Então, onde está o verdadeiro retorno?
O investimento de US$ 500 milhões que contraria o hype
O anúncio aconteceu na sede do banco em Manhattan, durante o lançamento do Small Business AI Institute. Ao lado de gigantes como Anthropic, Google, Meta e OpenAI, Solomon detalhou o aporte que financia a nova fase do programa 10,000 Small Businesses. Desde 2010, a iniciativa já capacitou quase 20 mil empreendedores com um compromisso anterior de US$ 1,25 bilhão.
As pequenas empresas representam 99% dos negócios nos EUA — um ecossistema “extremamente importante”, nas palavras do executivo. Mas a estratégia do instituto foge do script da indústria.
Por que modelos de ponta não servem para o dia a dia
Solomon foi direto: os modelos de fronteira são vitais para cibersegurança, defesa e descoberta de medicamentos. “São bastante diferentes do uso das ferramentas básicas que já existem para apoiar os negócios”, disse. O conselho? Separar o desenvolvimento avançado das ferramentas cotidianas que geram valor imediato.
Na prática, isso significa parar de perseguir a “IA mais inteligente do momento” e focar no que resolve problemas operacionais hoje.
A matemática do retorno: caro demais para apressar
“Não acho que você precise olhar para o mundo e dizer: ‘Preciso dominar isso nas próximas três semanas'”, afirmou Solomon. Ele enquadra a IA como uma decisão de ROI: o custo dos tokens e das plataformas só se justifica se houver ganho real de produtividade em vendas, atendimento, manufatura ou compras.
O recado é claro: fazer certo supera fazer rápido.
O que a pesquisa revela sobre o uso real nas PMEs
Um levantamento do Babson College para o Goldman (agosto/2024) expõe a realidade no chão de fábrica:
- 86% já usam IA (contra 56% em 2023);
- Mas apenas 15% a têm totalmente integrada ao core do negócio;
- 77% pedem mais treinamento e recursos;
- 73% dos usuários gastam menos de US$ 100/mês (16% usam só ferramentas gratuitas).
A adoção explode, mas a maturidade ainda engatinha. A maioria depende de chatbots (ChatGPT, Claude, Gemini) ou recursos nativos de softwares que já pagam. Agentes autônomos? Apenas 18% experimentam.
Produtividade sem aumentar custos fixos: casos reais
A tese do banco ganha corpo nos depoimentos de empreendedores. Allison Dunn, da Hibiscus Brew (Brooklyn), chama a IA de “parceira de reflexão”: organiza e-mails, monta agenda, criou o cardápio de outono e resolveu o controle de estoque de leite e café. “Trato como primeiro rascunho”, diz. O atendimento humano — cumprimentar o cliente pelo nome em três segundos — continua insubstituível.
Já Hagan Walker, da Glo Pals, usa IA “o dia inteiro”. Um agente escreveu o algoritmo que escolhe a menor caixa para cada envio; outro definiu o tema do site após meses de impasse. A regra de ouro: “Direitos autorais e ilustração são feitos por pessoas”, por cautela regulatória. A empresa contrata mais e prioriza quem domina essas ferramentas. “Está claramente aumentando nossa capacidade”, resume.
Os números apoiam: entre usuários de IA, 84% não mexeram no quadro de funcionários; 5% contrataram mais e só 6% reduziram. O tempo ganho virou planejamento estratégico (56%), marketing (44%) e novos produtos (31%).
Os três pilares para fechar a lacuna de execução
O instituto nasce para atacar o gap entre “usar” e “integrar”. A estrutura tem três eixos:
- Treinamento: certificados do Google, workshops da Anthropic e OpenAI, ferramentas da Meta;
- Pesquisa: mapear como PMEs realmente usam a tecnologia, não como a indústria acha que usam;
- Capital: “O acesso a capital continua sendo uma limitação”, reconheceu Solomon.
O que observar daqui para frente
O sinal do mercado é pragmático: a vantagem competitiva não virá de ter o modelo mais potente, mas de integrar ferramentas acessíveis aos processos centrais. Acompanhe a evolução dos programas de certificação gratuitos (especialmente o do Google para 20 mil alunos) e a curva de adoção de agentes autônomos — hoje em 18%, mas com potencial de automatizar tarefas operacionais repetitivas sem demandar contratações. O próximo salto de produtividade das PMEs estará na capacitação, não na aquisição de tecnologia de fronteira.
