Flávio Bolsonaro (PL) larga na frente no segundo turno contra Lula (PT) e, nos bastidores, a montagem do primeiro escalão já começou a vazar. O senador promete enxugar a Esplanada dos atuais 38 ministérios, mas precisa acomodar o Centrão sem repetir os erros do governo anterior.
A única confirmação oficial até agora é a Saúde. O resto? Um quebra-cabeça de interesses, vetos familiares e pressão do mercado. Entenda quem está no radar e por que certas pastas viraram campo minado.
Saúde definida: técnico de peso para tirar a pasta do ideológico
O oftalmologista Cláudio Lottenberg, do Hospital Albert Einstein, aceitou o convite para comandar o Ministério da Saúde. A escolha sinaliza uma ruptura clara com a gestão anterior: prioriza gestão hospitalar e credibilidade técnica sobre alinhamento doutrinário.
Lottenberg preside o Conselho de Administração do Einstein e tem trânsito livre no setor privado de saúde. A nomeação, se confirmada, seria o primeiro aceno concreto ao establishment médico e à Faria Lima.
Segurança Pública: a “linha dura” paulista contra a experiência goiana
A recriação do Ministério da Segurança Pública — extinto no governo Lula — disputa dois perfis opostos. O favorito é o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), ex-secretário de Segurança de Tarcísio de Freitas e símbolo da “linha dura” policial.
Do outro lado, Ronaldo Caiado (PSD-GO). Ex-governador e ex-presidenciável, ele apoiou Flávio no segundo turno após ficar em quarto lugar. Caiado trouxe índices de violência historicamente baixos para Goiás e foi saudado como “futuro ministro” em ato de campanha. A decisão revelará se Flávio prefere lealdade partidária ou resultado comprovado.
Educação: o fantasma de 2022 assombra a escolha
Para o MEC, a equipe busca um nome com experiência em redes estaduais grandes e alinhamento político. O secretário paulista Renato Feder lidera a lista, junto a gestores do Sul.
O detalhe crucial: Feder recusou o convite de Jair Bolsonaro em 2022 após veto da ala ideológica. Quem entrou foi Milton Ribeiro, depois exonerado e preso preventivamente por suspeita de favorecimento a pastores. A nomeação de Feder agora funcionaria como uma “reparação” e um sinal de que o filtro ideológico caiu.
O tabuleiro do Centrão: Prosperidade, Exterior e Agricultura
A acomodação dos aliados do Republicanos, União, Progressistas e Podemos dita as próximas peças:
- Ministério da Prosperidade (novo): Daniella Marques, braço-direito na campanha e cotada a vice, deve fundir programas sociais numa estrutura inspirada no atual Desenvolvimento Social.
- Relações Exteriores: Tereza Cristina (PP-MS), senadora e ex-ministra da Agricultura, ganhou força. Ela foi chave na crise do “tarifaço” de 2025, articulando em Washington enquanto Eduardo Bolsonaro defendia a medida publicamente. Flávio já vetou o irmão para o Itamaraty.
- Agricultura: Cota da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O presidente do grupo, Pedro Lupion (PP-PR), é o nome natural.
Fazenda e Energia: o recado para o mercado
Duas pastas definem a confiança dos investidores. Para a Fazenda, dois nomes técnicos disputam a preferência:
- Roberto Campos Neto: ex-presidente do BC, confiança total da família Bolsonaro.
- Marcelo Kayath: ex-secretário do Tesouro, arquiteto da abertura da Faria Lima para Flávio na campanha.
Em Minas e Energia ou na presidência da Petrobras, a briga é entre Adriano Pires (consultor setorial) e Adolfo Sachsida (ex-ministro e economista do programa de governo). Ambos defendem abertura de mercado e privatizações.
Polícia Federal: o controle da máquina de investigação
A direção-geral da PF é o cargo mais sensível fora da Esplanada. Quatro delegados circulam nas listas:
- Marcelo Bertolucci (lotado no gabinete de Flávio no Senado);
- Rolando Alexandre de Souza (ex-diretor, próximo a Alexandre Ramagem);
- Rodrigo Bartolomei (ex-superintendente em SP);
- Thiago Marcantonio (gabinete do ministro André Mendonça no STF).
Há ainda a hipótese de um indicado por Derrite, caso ele fique com a Segurança Pública. A definição dirá se o comando da PF será político, corporativo ou judicial.
O que observar nas próximas semanas
A transição oficial só começa após o segundo turno, mas os vazamentos já cumprem função estratégica: testam reações do mercado, do Congresso e da base bolsonarista raiz. Fique atento a três sinais:
- Se Feder for confirmado no MEC, a ala ideológica aceitará calada ou reagirá?
- Se Tereza Cristina for para o Itamaraty, Eduardo Bolsonaro assume outro posto ou rompe?
- O número final de ministérios: a promessa é cortar para menos de 25. Cada pasta extinta é um aliado insatisfeito.
O desenho final revelará se Flávio Bolsonaro governa com a máquina do Centrão, a bússola do mercado ou a sombra do pai. A resposta começa a sair em 30 de outubro.
