Economia

Alerta de Arminio Fraga: cenário fiscal repete erros do pré-crise Dilma

Arminio Fraga alerta que cenário fiscal brasileiro repete erros do pré-crise Dilma.
Economista Arminio Fraga alerta para a piora do cenário fiscal e o risco de nova crise econômica no Brasil.

O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirma que o Brasil está caminhando para uma nova crise econômica, com um cenário fiscal comparável ao período que antecedeu a recessão do governo Dilma Rousseff. Segundo ele, a herança deixada para o próximo gestor será “maldita” e a economia opera sem rumo. A questão central que se coloca para investidores e empresários é: até que ponto os indicadores positivos atuais mascaram um problema estrutural profundo?

Em entrevista ao economista Marcos Lisboa, no videocast Desenquadrando, Fraga criticou a falta de coordenação da política macroeconômica. Ele classifica o momento como um “ciclo político clássico”, marcado pela expansão indiscriminada de gastos em ano eleitoral. Enquanto a autoridade monetária tenta conter a inflação, o setor público puxa a corda no sentido oposto.

“Tem um Banco Central tentando cumprir seu mandato e segurar a inflação. E, do outro lado, tipo um cabo de guerra, tem gente justamente procurando de toda maneira gastar”, avaliou o economista. Para ele, a tentativa de esquentar a economia no curto prazo não resolve os problemas estruturais do país.

O reflexo no mercado de crédito e no varejo

Para o leitor que opera no mercado ou gerencia negócios, os primeiros sinais de alerta já aparecem no balanço das empresas. Fraga detalha que os problemas surgem em ondas e o mercado de crédito já demonstra o “mau tempo” que se aproxima.

A primeira onda atingiu o consumidor final e a segunda impactou severamente o comércio. “A primeira onda foi o crédito pessoal, com dezenas de milhões de inadimplências. Depois, o varejo, que em geral trabalha com margens pequenas e carregando estoque, então eles têm uma dívida natural. Esse setor foi dizimado”, afirmou.

A ilusão dos indicadores e o peso do Estado

Dados como a recente queda da taxa de desemprego para 5,4% no trimestre até junho — o menor nível da série histórica para o período — podem dar uma falsa sensação de saúde financeira. Na visão do ex-presidente do BC, esses números servem para mascarar a gravidade do desequilíbrio fiscal.

Apesar do discurso frequente sobre austeridade na esfera pública, a estatística mostra que o ajuste nunca saiu do papel. O tamanho do Estado cresceu de forma consistente nas últimas décadas, onerando a capacidade de investimento do país.

  • Evolução do gasto público: há 30 ou 40 anos, as despesas equivaliam a um quarto do PIB.
  • Cenário atual: hoje, a despesa pública representa cerca de um terço do PIB, uma alta de 9 pontos percentuais.
  • Conclusão prática: houve falta de prioridade na alocação, não austeridade.

O que observar daqui para frente

O histórico de crescimento do PIB per capita brasileiro nas últimas três décadas é classificado pelo economista como “medíocre”. Fraga cita que, desde o Plano Real, houve raros momentos de esperança, como o início do primeiro governo Lula, período em que ele comandou a autoridade monetária (1999-2003).

No entanto, ele alerta que a memória institucional foi perdida. “Depois, em um ataque assim meio de amnésia, os velhos vícios e as velhas ideias voltaram”, completou.

Para investidores e gestores, a lição prática é monitorar de perto a trajetória de despesas obrigatórias e o comportamento da inadimplência nos próximos meses. O embate entre o aperto monetário e a expansão fiscal definirá o custo de capital e o espaço para crescimento real dos negócios.