Economia

Viracopos: Relatório Bilionário Pronto Há 4 Meses e AGU Ainda Não Liberou

Aeroporto de Viracopos terminal principal com aeronaves no pátio sob céu azul
Terminal do Aeroporto de Viracopos, em Campinas, cujo futuro depende de relatório travado na AGU há quatro meses

Um relatório que pode definir o destino do quinto aeroporto mais movimentado do Brasil está parado na Advocacia-Geral da União há quatro meses. O documento, finalizado em 10 de junho, reúne os termos para manter a concessionária Aeroportos Brasil Viracopos (ABV) à frente do terminal, mas sua aprovação foi adiada para depois do período eleitoral.

Enquanto a burocracia trava, a incerteza ronda investidores, companhias aéreas e o mercado de infraestrutura aeroportuária. O desfecho pode ditar se o ativo permanece em mãos privadas ou volta ao controle público.

O que está parado na mesa da AGU

A comissão de autocomposição — criada em outubro de 2025 como última tentativa de evitar a caducidade do contrato — encerrou seus trabalhos em junho. O relatório final já foi entregue, mas a AGU vem sugerindo ajustes pontuais no texto.

Segundo o diretor-presidente da Anac, Tiago Chagas Faierstein, as negociações continuam “pois têm outros atores envolvidos”, mas o calendário eleitoral desacelerou tudo. A expectativa oficial é de que a análise do órgão de controle saia ainda este ano, seguida de revisão pela Anac e, só então, anúncio público dos termos.

A concessionária, por sua vez, mantém silêncio absoluto sob cláusula de confidencialidade (NDA).

O impacto direto para quem opera ou investe no terminal

Para o empresariado do setor, o limbo jurídico gera dois cenários de risco. Se o acordo for homologado, a ABV segue na gestão com novas condições financeiras e possíveis contrapartidas de expansão. Se falhar, a relicitação — já arquivada por vencimento de prazo legal em junho de 2025 — teria de ser reaberta do zero, alongando a indefinição por anos.

Enquanto não há definição, investimentos de grande porte, como a segunda pista, permanecem no papel. A concessionária também não pode planejar captações de longo prazo sem saber se terá direito a explorar o ativo.

Os números que explicam o tamanho do abacaxi

  • R$ 2,5 bilhões: valor calculado pela Anac para indenizar investimentos não amortizados até dezembro de 2022.
  • R$ 2,88 bilhões: dívida total da ABV, somando outorgas atrasadas e débitos bancários em arbitragem.
  • 124 mil movimentos/ano: patamar atual de pousos e decolagens — bem abaixo dos 178 mil que contratualmente exigiriam a segunda pista.
  • 49% Infraero / 51% privados: composição acionária (UTC 28,41%, Triunfo 68,65%, Egis 2,94%).
  • 5º aeroporto mais movimentado do país: com recordes de passageiros em 2022 e 2023.

A jogada dos seis aeroportos regionais

Uma das cartas na manga discutidas na comissão foi a inclusão de seis terminais do Norte e Nordeste no pacote da concessão. A ideia: usar a receita de Viracopos para subsidiar aeroportos deficitários, tornando o conjunto mais atrativo para a iniciativa privada.

A lista inclui Tarauacá (AC), Barcelos, Itacoatiara e Parintins (AM), Itaituba (PA) e Guanambi (BA). A proposta ainda não foi confirmada oficialmente, mas sinaliza que o governo busca uma solução sistêmica, não apenas local.

A segunda pista que nunca sai do papel

Prometida desde a assinatura do contrato em 2012, a pista extra já teve prazos previstos para 2017 e 2018. A falta dela já custou caro: em outubro de 2012, um cargueiro avariado fechou o aeroporto por 45 horas.

Hoje, a obra está condicionada ao alcance de 178 mil movimentos anuais — meta distante da realidade atual. A antecipação da construção foi debatida como contrapartida no acordo, mas depende de sinal verde financeiro que só virá com o fim do impasse.

O que observar daqui para frente

Três marcos ditam o cronograma imediato: a manifestação final da AGU (pós-eleições), o parecer técnico da Anac sobre o relatório ajustado e a eventual coletiva para divulgar os termos. Paralelamente, corre em arbitragem a disputa sobre o valor exato da indenização devida à concessionária.

Se o acordo sair ainda em 2026, a ABV ganha fôlego para estruturar a expansão prometida. Caso contrário, o setor volta à estaca zero: nova modelagem de edital, nova auditoria do TCU e mais anos de incerteza para um ativo que move 10% da carga aérea nacional.