Um mergulhador transformou o fundo de uma represa na divisa entre São Paulo e Minas Gerais em fonte de renda recorrente. Lucas Belarmino Ribeiro atende chamados semanais para recuperar objetos que banhistas perdem nas águas escuras do Rio Grande. A demanda, segundo ele, não para de crescer.
O que leva alguém a investir em equipamento profissional para buscar pertences alheios no lodo? A resposta passa por técnica, risco calculado e um mercado invisível que movimenta valores surpreendentes.
O dia a dia de quem caça no escuro
Toda semana, Lucas chega de quadriciclo às margens da represa entre Rifaina (SP) e Sacramento (MG). O preparo para cada imersão inclui cilindro com autonomia de 90 minutos, lastros para manter a submersão, roupa térmica contra o frio das profundezas e um detector de metais essencial para localizar itens entre a vegetação aquática.
As buscas ocorrem em pontos onde a profundidade ultrapassa 20 metros. A visibilidade é praticamente nula. “A gente vai lá e faz esse trampo. Dá certo”, resume o mergulhador, que prefere não revelar o valor cobrado por cada resgate.
Números que explicam o negócio
- Profundidade máxima de trabalho: mais de 20 metros
- Autonomia por cilindro: 1 hora e 30 minutos
- Itens recuperados no naufrágio de 11/10: 20+ óculos, 6 celulares, dezenas de chaves
- Achado mais valioso até agora: corrente de ouro de 60 g, avaliada em R$ 50 mil
Entre os resgates rotineiros, aparelhos eletrônicos ainda funcionam após dias submersos. Lucas já devolveu drones e negociou a entrega diretamente com donos que viram seus vídeos nas redes sociais.
O caso que projetou a profissão
Em 11 de outubro, uma chalana com 22 pessoas afundou gradualmente no Rio Grande. Todos ocupantes se salvaram graças à ação rápida do piloto, que exigiu coletes e direcionou a embarcação à margem antes que o motor parasse. Nenhum passageiro precisou de atendimento médico.
Lucas mergulhou como voluntário nos dias seguintes. O resgate em massa — óculos, telefones, chaves — gerou repercussão imediata e mostrou a utilidade prática do serviço. A Marinha instaurou inquérito para apurar as causas; a suspeita inicial é entrada de água em um dos tubulões de flutuação.
Como aumentar a chance de recuperar o seu
O mergulhador orienta: quem perde algo na água deve fixar referências visuais imediatas. “Olha naquele prédio e no rumo desse jet ski. Faz uma cruz para saber mais ou menos”, explica. A triangulação visual reduz drasticamente a área de varredura no fundo.
Sem pontos de referência, a busca torna-se improdutiva mesmo com detector de metais. O lodo e a vegetação criam falsos positivos constantes.
O que observar daqui para frente
A região atrai fluxo constante de turistas em ranchos e pousadas. Cada fim de semana longo aumenta a probabilidade de perdas — e a demanda por resgate especializado. Para profissionais de seguros, operadores de lazer náutico e donos de embarcações, o caso sinaliza um nicho de serviço com barreira de entrada técnica alta e pouca concorrência direta.
Monitorar a regulamentação da atividade e eventuais exigências de certificação pode antecipar oportunidades em um mercado que, por enquanto, nasce da necessidade imediata de quem viu o celular afundar.
