Manaus atingiu 99% de cobertura de água tratada em 2026, mas o caminho até aqui exigiu engenharia inédita em palafitas e becos. O verdadeiro teste, no entanto, começa agora: universalizar o esgoto até 2033.
A engenharia que sobe e desce com o rio
Quando a concessionária assumiu a operação em 2018, encontrou 200 mil pessoas sem água encanada. Muitas viviam em palafitas, onde o nível do rio dita a rotina. A solução foi ancorar a rede nas passarelas: quando a enchente sobe, a tubulação sobe junto; na seca, desce.
Hidrômetros foram instalados em pontos elevados, próximos às portas, para facilitar a leitura e evitar danos. “O sistema tem que se adaptar à palafita, não o contrário”, resume o diretor-presidente Pedro Augusto Freitas.
Beco do Nonato: onde a retroescavadeira não entra
No bairro Cachoeirinha, a largura das passagens impediu o uso de máquinas pesadas. A rede de esgoto foi assentada praticamente à mão, exposta sob as casas, para não abalar as estruturas de madeira.
O modelo facilita manutenção e leva os efluentes até a Estação de Tratamento Educandos. Moradora há 40 anos, Ivone Dantas viu o igarapé diante de casa voltar a ter vida: “A água era transparente, não fedia. A sujeira tomou conta, mas hoje o cheiro melhorou”.
Conta de água como porta de entrada para o sistema financeiro
A expansão veio acompanhada de tarifas diferenciadas: a Tarifa Manauara (50% de desconto) e a social (R$ 10 para água e esgoto). O efeito colateral surpreendeu a própria empresa.
Para muitas famílias, a fatura virou o primeiro comprovante de endereço da história. Isso abriu acesso a conta bancária e crédito. “Esse aspecto social, de levar dignidade, é o que nos move”, afirma Freitas.
Tecnologia satélite e IA cortam perdas de 75% para 45%
O índice de perdas caiu drasticamente em oito anos. A estratégia combinou regularização de ligações clandestinas com caça a vazamentos invisíveis.
- Análise por satélite: não aponta o furo exato, mas reduz a área de busca das equipes em campo.
- Centro de Operações Integradas: monitora pressão, vazão e consumo em tempo real.
- Inteligência artificial: detecta padrões anômalos que indicam vazamentos ou falhas operacionais.
A adaptação incluiu aprofundar captações e instalar bombas móveis para enfrentar as secas severas de 2023 e 2024, mantendo a retirada de água do Rio Negro mesmo em cotas mínimas.
O gargalo do esgoto e a corrida para 2033
Se a água venceu, o esgoto ainda é o calcanhar de Aquiles. A cobertura saltou de 16% (2018) para cerca de 42% (2026), mas a meta do Marco Legal é 90% até 2033.
O programa Trata Bem Manaus prevê ampliar redes coletoras, executar ligações domiciliares e expandir o tratamento. A geografia da cidade — igarapés, relevo acidentado, ruas estreitas — forçou a adoção de estações de tratamento menores e distribuídas, em vez de poucas grandes centrais.
O que observar daqui para frente: igarapés balneáveis novamente
A promessa final não é apenas numérica. A recuperação dos igarapés depende da coleta e tratamento efetivos, mas também do fim do descarte irregular de lixo. O horizonte traçado pela concessionária é devolvê-los à população como espaços de lazer, resgatando balneários urbanos perdidos nas décadas de 70 e 80.
Para o investidor e o gestor público, o termômetro será a velocidade das ligações domiciliares — muitas vezes o elo mais fraco da cadeia — e a capacidade de manter a operação resiliente diante de secas cada vez mais extremas. O saneamento em Manaus deixou de ser apenas infraestrutura para virar ativo climático e social.
