Minas Gerais tem 16,3 milhões de eleitores e, nas últimas três décadas, nunca errou o vencedor da presidência. No primeiro turno de 2022, porém, 3,7 milhões de mineiros simplesmente não compareceram — uma abstenção de 22,8%, acima da média nacional. O que esses votos silenciosos podem definir no segundo turno?
O eleitorado mineiro oscilou entre direita e esquerda em todas as eleições desde a redemocratização. Essa volatilidade rendeu ao estado o apelido de “pêndulo” entre cientistas políticos. Mais do que isso: a composição econômica e social de Minas espelha o Brasil inteiro, com regiões industriais, agronegócio forte, áreas de mineração e vastos territórios de semiárido.
O mapa da divisão: votos totais versus municípios
No primeiro turno, Jair Bolsonaro (PL) liderou no total de votos: 48,24% contra 43,33% de Lula (PT). A diferença bruta foi de 588.612 votos. Mas Lula venceu em mais cidades — 452 contra 401 do adversário. Como explicar essa aparente contradição?
A resposta está na concentração urbana. Bolsonaro venceu em nove das dez maiores cidades mineiras pelo eleitorado: Belo Horizonte, Uberlândia, Contagem, Betim, Montes Claros, Uberaba, Ribeirão das Neves, Governador Valadares e Ipatinga. Lula levou apenas Juiz de Fora.
- Bolsonaro forte: Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, Região Central
- Lula à frente: Norte, Jequitinhonha, Mucuri, Zona da Mata
Estratégias de campanha revelam o cálculo eleitoral
As visitas dos candidatos expõem onde cada lado acredita poder virar votos. Lula retomou a agenda em Minas no dia 16 de outubro, começando por Juiz de Fora — seu único bastião entre as grandes cidades. Depois foi a Ipatinga, onde Bolsonaro abriu 29 pontos percentuais de vantagem. Em 21 de outubro, caminhada no centro de Belo Horizonte com Alexandre Silveira e Marília Campos.
Bolsonaro escolheu Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, uma das poucas cidades da região onde venceu no primeiro turno. No sábado anterior à votação (24), ato em Belo Horizonte com Nikolas Ferreira, deputado federal mais votado do Brasil (3,1 milhões de votos).
O reflexo no Congresso e na Assembleia
A divisão não ficou restrita à presidência. Para o Senado, Minas elegeu um nome de cada campo: Domingos Sávio (PL), com 4,9 milhões de votos (24,21%), e Marília Campos (PT), com 3,9 milhões (19,44%).
Na Câmara dos Deputados, o PL terá a maior bancada mineira: 21 das 53 cadeiras. A Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB, PV) ficou com 13. Curiosamente, entre os dez deputados federais mais votados do estado, cinco são do PT e dois do PL.
Na Assembleia Legislativa (ALMG), o PL saltou de 13 para 21 cadeiras, tornando-se a maior bancada a partir de 2027. O PT vem logo atrás com 15 deputados. Bruno Engler (PL) liderou a votação estadual com 675.940 votos; Beatriz Cerqueira (PT) ficou em segundo com 328.402.
A exceção do governo estadual
O cenário equilibrado das disputas federais não se repetiu no governo de Minas. Cleitinho Azevedo (Republicanos) venceu no primeiro turno com 55,40% dos votos válidos. Patrus Ananias (PT), apoiado por Lula, fez 26,34%. O candidato de Bolsonaro, Flávio Roscoe (PL), ficou em terceiro com 6,97%.
Cleitinho declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno, mas divergiu publicamente do presidente durante a tramitação da PEC pelo fim da escala 6×1 — bandeira da esquerda e de Lula. Bolsonaro criticou a proposta, mas votou a favor em 14 de outubro.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis podem definir o desfecho mineiro — e, por consequência, o nacional. Primeiro: a taxa de comparecimento. Se a abstenção cair nos grotões onde Lula lidera ou nas periferias urbanas onde Bolsonaro domina, a conta muda. Segundo: o desempenho de Nikolas Ferreira e André Janones (Rede) como cabos eleitorais digitais; o canal “Exército do Lula” no WhatsApp ultrapassou 9 milhões de seguidores. Terceiro: como Cleitinho operará sua máquina estadual nos 15 dias finais.
Historicamente, quem vence em Minas vence no Brasil. Em 2022, o pêndulo parou no meio do caminho. Os 3,7 milhões que ficaram em casa no dia 2 de outubro têm, nas mãos, o peso de inclinar a balança.
