Economia

O segredo por trás do “Ministério da Prosperidade”: Caixa e BB podem mudar de dono

Flávio Bolsonaro planeja criar Ministério da Prosperidade para Caixa e Banco do Brasil com Daniella Marques
Senador propõe novo ministério para gerir bancos públicos caso vença o segundo turno.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) estuda retirar a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil do guarda-chuva da Fazenda para subordiná-los a um novo ministério social — batizado internamente de Ministério da Prosperidade — caso vença o segundo turno no domingo (25). A informação circulou nos bastidores da campanha nas últimas 48 horas.

A jogada tem nome e sobrenome: Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e principal assessora econômica do candidato. Ela é a favorita para comandar a pasta.

Por que isso muda o jogo para quem investe

A estrutura atual coloca os dois maiores bancos públicos sob a alçada de Fernando Haddad. A mudança proposta altera a governança, o apetite de risco e a destinação de crédito de instituições que, juntas, detêm mais de R$ 3 trilhões em ativos totais.

Para o mercado, a leitura imediata é de risco político elevado. A Caixa, especialmente, opera programas habitacionais, saneamento, infraestrutura regional e benefícios sociais — uma mistura que não cabe apenas em uma pasta voltada à assistência.

O que está por trás da nomeação de Marques

A ex-presidente da Caixa ganhou protagonismo na reta final da campanha após episódio de atrito entre o candidato e Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo DF. A lealdade de Marques manteve a ponte com o eleitorado feminino, segmento decisivo nas urnas.

Ela chegou a ser cotada para vice e, depois, para a Fazenda. A resistência do Republicanos (seu partido à época) à aliança com o PL barrou a primeira; a reta final do primeiro turno esfriou a segunda. Turbinar o ministério social com os bancos públicos seria, na prática, um prêmio de consolação com orçamento bilionário.

Os números que ninguém ignora

  • R$ 9,5 bilhões em consignado do Auxílio Brasil liberados às vésperas do 2º turno de 2022
  • R$ 7,6 bilhões saíram só da Caixa em 30 dias
  • Linha foi suspensa após a derrota e extinta no governo Lula
  • TCU investigou uso eleitoral, mas arquivou o processo em 2024

O episódio ainda repercute no tribunal de contas e nas áreas de compliance dos bancos. Qualquer sinal de repetição acende alerta vermelho em agências de rating e investidores institucionais.

Resistência interna e o entrave do Centrão

Auxiliares de Flávio alertam: a Caixa toca o Minha Casa, Minha Vida, obras regionais e crédito imobiliário. Não é “apenas social”. Além disso, o comando da Caixa hoje pertence a Carlos Vieira, indicação de Arthur Lira (PP-AL). O BB está nas mãos de Tarciana Medeiros, nome do PT.

Mexer nessas peças exige negociação com o Centrão e com a base do governo atual. Não é canetada simples.

O que o plano de governo diz — e o que omite

No programa registrado no TSE, Flávio promete transformar a Caixa no “Banco da Prosperidade”. Propõe o programa “Ganha-Ganha”: pontos por cursos e formalização de negócios convertidos em juros menores, cashback e crédito facilitado.

O Banco do Brasil não aparece no documento. O silêncio alimentou especulações após declaração de Marques em evento do Grupo Esfera, em setembro:

“Antes de qualquer nome, mesmo um Banco do Brasil poderia… a gente precisa reestruturar, sanar, profissionalizar de novo a gestão, recuperar valor.”

A fala gerou mal-estar imediato entre executivos do BB. O coordenador econômico Adolfo Sachsida correu para apagar o incêndio: “Não tem privatização coisa nenhuma. Podem ficar tranquilos.”

O fantasma de 2019 ainda assombra

No primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, Rubem Novaes (equipe de Paulo Guedes) defendeu abertamente a privatização do BB. Durou nove meses. O veto presidencial a uma campanha de diversidade do banco marcou o fim de seu prestígio.

Veio André Brandão (plano de demissão voluntária) e, seis meses depois, Fausto Ribeiro — funcionário de carreira alinhado ao Planalto. O BB trocou três presidentes em 18 meses. O mercado precificou instabilidade.

O que observar daqui para frente

Se eleito, Flávio terá de confirmar Marques no ministério e negociar a transferência dos bancos com o Congresso e o Centrão. Dois sinais valem ouro nas próximas semanas:

  • Nome do futuro ministro da Fazenda — se técnico de mercado, sinaliza contenção; se político, abre espaço para ingerência
  • Primeira reunião do Conselho de Administração da Caixa e do BB após a posse — mudanças de estatuto ou diretrizes de crédito revelam a rota real

Enquanto isso, a volatilidade nas ações de BBAS3 e nos papéis de dívida da Caixa deve seguir elevada. Quem tem posição nesses ativos faria bem em monitorar não só o resultado das urnas, mas a composição da equipe de transição nos primeiros dez dias de novembro.