A PPG, gigante de revestimentos avaliada em US$ 24 bilhões, projeta triplicar suas vendas para data centers em 2024. O motivo não tem nada a ver com algoritmos — e tudo a ver com fogo, ferrugem e eletricidade estática.
Enquanto a disputa por chips e modelos de linguagem domina as manchetes, uma cadeia industrial silenciosa fatura alto com a infraestrutura que sustenta a revolução. A tinta, item muitas vezes ignorado, tornou-se peça crítica.
O efeito marshmallow que protege bilhões
No laboratório da PPG em Pittsburgh, conhecido internamente como “o bunker”, o químico Paul Fenton demonstra o Steelguard 951. Submetido a maçaricos, o revestimento de um milímetro expande para quase dez milímetros — uma crosta preta que isola o aço estrutural do calor extremo.
“É como um marshmallow tostado”, resume Fenton. “O ar retido mantém tudo frio.”
Essa expansão controlada evita que vigas e colunas percam resistência durante um incêndio, comprando tempo para evacuação e combate às chamas. Em data centers, onde a densidade de energia por metro quadrado supera a de edifícios comerciais comuns, a proteção passiva não é opcional — é exigência de seguro e norma técnica.
Velocidade de obra dita as regras do jogo
Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos de proteção da PPG nas Américas, resume o cenário: “Nunca vi um boom tão grande quanto este.” A executiva destaca um fator decisivo: data centers são erguidos em cerca de um terço do tempo de projetos de infraestrutura tradicionais.
Essa urgência forçou a PPG a reorganizar a venda. A empresa criou duas frentes dedicadas:
- Uma equipe focada nas big techs (Microsoft, Google, Amazon) para fechar contratos globais de fornecimento.
- Outra que atua junto a arquitetos, engenheiros e construtoras antes do início das obras, garantindo que os revestimentos entrem na lista de materiais aprovados desde o projeto.
Quem chega tarde na especificação, fica fora da obra.
O pacote completo: muito além da cor
Em abril, em feira setorial em Washington, a PPG lançou um portfólio desenhado para data centers. O pacote inclui:
- Revestimentos intumescentes para proteção ao fogo em estruturas metálicas.
- Primers anticorrosivos para fundações e áreas expostas.
- Pisos condutivos que dissipam eletricidade estática — risco real para servidores sensíveis.
- Barreiras contra interferência eletromagnética (EMI) entre equipamentos adjacentes.
Amy Ericson, vice-presidente sênior da PPG, frisa: “Não é como entrar em uma loja, comprar uma lata e passar na parede.” São sistemas de três camadas — primer, funcional, acabamento — testados em conjunto.
Cinza, cinza-claro, cinza-escuro: a estética que não existe
A paleta resume-se a tons de cinza. Ninguém vê o resultado final — data centers são ocupados por máquinas, não por pessoas. “Estética não está entre as principais preocupações dos nossos clientes”, diz Solcz.
Essa indiferença visual libera a engenharia para focar puramente em desempenho. O mesmo ocorre na concorrente Sherwin-Williams, que reportou crescimento de dois dígitos na divisão de revestimentos de proteção impulsionado pelo mesmo vetor.
Os números por trás da obra invisível
Em uma única construção, o gasto com revestimentos varia entre US$ 3 milhões e US$ 8 milhões — fração pequena do custo total, mas volume relevante para fornecedores. Os EUA concentram cerca de 5.500 data centers ativos, aproximadamente dez vezes o segundo colocado, segundo o AI Index Report de Stanford.
Mais da metade das oportunidades de venda da PPG está no mercado americano. Ericson admite que o segmento ainda representa “um dígito baixo” do faturamento de duas divisões, mas projeta crescimento “várias vezes mais rápido” que outros mercados de infraestrutura.
Gargalos que podem frear a festa
Nem tudo é expansão contínua. Três obstáculos concretos já aparecem no radar:
- Energia: projetos adiados à espera de conexão e transformadores — equipamentos com lead time de 18 a 24 meses.
- Oposição local: comunidades questionam consumo de água, ruído e impacto visual.
- Cadeia de suprimentos: cabos, brita, aço e mão de obra especializada competem com outras frentes de infraestrutura.
Ericson é direta: cabe às big techs e às concessionárias conduzir o diálogo com as comunidades. A PPG entrega o revestimento; a licença social não vem na lata.
O que observar nos próximos trimestres
O termômetro mais confiável não está no balanço da Nvidia — está na carteira de pedidos de revestimentos intumescentes, primers epóxi e pisos condutivos. Quando a especificação trava, a obra atrasa. Quando a obra atrasa, o data center não entra em operação. E quando o data center não opera, o modelo não roda.
Acompanhe os anúncios de novas fábricas de transformadores, leilões de capacidade de transmissão e decisões de zoneamento em condados-chave (Virginia, Texas, Oregon, Ohio). É ali, no cinza do concreto e do aço coberto por camadas invisíveis, que a velocidade real da IA será definida.
