As economias emergentes crescem ao dobro da velocidade das nações ricas, atraem capital externo e recebem selo de aprovação do FMI. Mas, nas ruas de Buenos Aires a Casablanca, o descontentamento social atinge o nível mais alto em quase uma década.
Por que a “recuperação” macroeconômica não chega ao bolso da população? A resposta define o risco de quem investe ou opera nesses mercados.
O êxito nos balanços, o vazio nas prateleiras
Desde a pandemia, dezenas de países cortaram subsídios, liberalizaram câmbio e elevaram juros a mando do Fundo Monetário. O resultado contábil é inegável: a inflação argentina despencou de 300% para 33%, o investimento direto no Marrocos quase dobrou em 2023 e o bloco emergente avança a 4% ao ano.
Para o comerciante Gustavo Perez, nos arredores de Buenos Aires, a conta não fecha. Seus custos de reposição triplicaram e a clientela encolheu. “Havia uma classe média há três anos. Ela não existe mais”, resume.
Essa fratura expõe a tensão central: a estabilidade financeira foi comprada com poder de compra real.
Quando o remédio vira veneno político
Para Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, os governos “não tinham absolutamente nenhuma outra escolha” senão ajustar as contas sob risco de abismo investidor. O problema é o prazo de validade político dessa escolha.
Dados da Verisk Maplecroft mostram que o risco médio global de agitação social bateu recorde recente. Torbjorn Soltvedt, da consultoria, alerta: quando alimentos e energia pesam 30% a 50% da cesta de consumo — contra 13% nos EUA —, qualquer alta é sentida como agressão imediata.
Dois mundos, uma mesma fronteira
O fenômeno não é exclusivo da Argentina. Em três frentes, o padrão se repete:
- Marrocos: Arranha-céus e estádios erguem-se em Casablanca, enquanto protestos de jovens e filas para migrar para a Europa revelam o abismo entre o PIB e a percepção de futuro.
- Sri Lanka: Saiu do calote, mas a pobreza permanece acima do pré-crise. A vendedora Sirimodara acorda às 5h para manter o almoço a US$ 2, absorvendo custos para não perder o cliente.
- Nigéria e Egito: Fim de subsídios de combustível e privatizações estabilizaram reservas, mas o ministro nigeriano admitiu: ignorar a desigualdade é “sentar sobre pólvora”.
O abismo demográfico que ninguém ignora
O Banco Mundial projeta 1,2 bilhão de pessoas entrando na idade ativa nos países em desenvolvimento na próxima década. A equação é simples e assustadora: o investimento atual gera empregos suficientes para absorver essa onda?
Se a resposta for não, a instabilidade atual vira crise estrutural. O FMI, pela voz de Kristalina Georgieva, já cobra mais apoio aos de baixa renda, admitindo que o “trabalho árduo” de reformas está sob ameaça do custo de vida.
O que separa ricos de emergentes na hora da dor
França, Itália e Espanha também viram protestos por custo de vida. A diferença é o colchão fiscal: nações desenvolvidas amortecem o choque com transferências e subsídios temporários. No Sul Global, o espaço orçamentário é inexistente — justamente o que forçou os ajustes iniciais.
Para o investidor, a lição é clara: estabilidade macro sem inclusão micro tem data de validade curta. Um retrocesso reformista paralisaria o fluxo de capital e a geração de empregos necessários para fechar a lacuna com o mundo rico.
O que observar daqui para frente
Monitore três variáveis nos próximos trimestres: a trajetória do emprego formal nos grandes emergentes, a disposição política para manter subsídios focalizados (em vez de cortes lineares) e a velocidade da criação de vagas frente à onda demográfica. Onde o crescimento gerar salário real, o risco político cai. Onde não gerar, a “pólvora” citada pelo ministro nigeriano pode explodir — e levar os ativos locais junto.
