A prévia da inflação oficial (IPCA-15) caiu para 0,32% em outubro, menos da metade do registrado em setembro. O alívio no bolso é real, mas esconde uma armadilha: o acumulado em 12 meses furou o teto da meta do governo.
O índice atingiu 4,62% no período, superando o limite de 4,5% tolerado pelo Banco Central. Em setembro, o mesmo indicador estava em 4,47%. A diferença parece pequena, mas muda completamente o cenário para juros e investimentos.
O que segurou a alta — e por que pode não durar
Dois vilões viraram heróis neste mês: a conta de luz e as passagens aéreas. A energia elétrica residencial recuou 0,89% com a troca da bandeira tarifária de amarela para verde, eliminando a cobrança extra de R$ 1,885 a cada 100 kWh.
As passagens aéreas caíram 9,24%, gerando o maior impacto negativo individual do índice (-0,08 ponto percentual). Em setembro, a energia havia subido 7,42% por causa do fim do bônus de Itaipu. O efeito “vai e vem” da conta de luz mostra como a inflação segue sensível a decisões regulatórias, não apenas à demanda.
O inimigo invisível: comida no prato
Enquanto tarifas caíam, a alimentação no domicílio acelerou de 0,38% para 1,01%. O grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,88% e respondeu sozinho por 0,19 ponto percentual da inflação do mês.
- Tomate: +24,54% (maior pressão individual do índice)
- Cebola: +13,63%
- Batata-inglesa: +10,96%
- Arroz: +5,80%
Do lado das quedas, cenoura (-10,67%), frutas (-1,37%) e café moído (-1,16%) aliviaram parcialmente. Mas o recado é claro: a inflação de alimentos segue disseminada e volátil.
Transporte e combustíveis: a conta não fechou
O grupo Transportes subiu apenas 0,05%, mas esconde movimento forte nos combustíveis. Diesel avançou 3,70%, etanol 2,73% e gasolina 0,92%. O gás veicular caiu 0,18%.
A alta dos combustíveis pressiona custos de frete e logística, com efeito defasado sobre preços de bens e serviços. O diesel, em especial, contamina toda a cadeia de distribuição — do campo à gôndola do supermercado.
O que os economistas não dizem em público
“Ganhou-se uma batalha, mas a guerra não acabou”, resume Roberto Luis Troster, coordenador do Cefeb/Fipe. A desaceleração mensal não indica trajetória consistente de queda. O núcleo da inflação — que exclui voláteis — segue pressionado por serviços e alimentos.
O mercado, via Boletim Focus, projeta IPCA cheio de outubro em 0,32%, alinhado à prévia. O número oficial sai em 12 de novembro. Se confirmado, mantém o BC em alerta: a meta de 3% (com banda de 1,5 p.p.) continua distante.
Diferença que importa: IPCA-15 vs IPCA
A prévia coleta preços de 16 de setembro a 14 de outubro em 11 regiões metropolitanas. O IPCA cheio abrange 16 localidades e 377 itens. A metodologia é idêntica; o período e a abrangência mudam.
Famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos (R$ 1.621 hoje) compõem a cesta de referência. A diferença de 10 itens e 5 localidades explica eventuais desvios entre prévia e oficial.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem o próximo trimestre: bandeira tarifária de novembro (já definida como amarela), safra de hortifrútis e política de preços da Petrobras. Se a energia voltar a subir e o tomate não recuar, o IPCA de novembro pode surpreender para cima. Para quem precifica contratos, aluga imóveis ou gere tesouraria, o sinal é claro: a inflação desacelerou, mas não convergiu. O juro real segue elevado — e deve permanecer assim enquanto o núcleo não ceder.
