Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (22) aponta que a avaliação negativa do governo Lula atingiu o menor patamar em quase dois anos: a diferença entre “ruim/péssimo” e “ótimo/bom” caiu para apenas 3 pontos percentuais. Simultaneamente, a distância para o adversário no segundo turno encolheu 2,3 pontos na intenção de voto geral. A combinação desses dados acende um alerta: a virada, antes improvável, entrou no radar.
Mas a eleição não estaria praticamente empatada? O empate técnico existe, porém a história recente ensina cautela. Desde 2018, a direita tem comparecido às urnas com mais força do que indicam os levantamentos de véspera. Não é uma lei, mas um padrão que impede tratar o empate como segurança.
Onde a recuperação aconteceu de verdade
O estreitamento não foi uniforme. Entre os homens, a vantagem do oponente caiu 5,8 pontos. No eleitorado jovem (16 a 24 anos), o tombo foi de 12,6 pontos. No Nordeste, reduto histórico, a diferença encolheu 8,6 pontos. O interior do país e o segmento com ensino médio também registraram movimentos superiores a 5 pontos.
- Homens: -5,8 p.p.
- Jovens (16-24 anos): -12,6 p.p.
- Nordeste: -8,6 p.p.
- Ensino médio: -8,2 p.p.
- Interior: -5,0 p.p.
- Renda até 2 salários mínimos: -4,2 p.p.
Todas as variações flertam com a margem de erro, mas a consistência setorial desenha uma tendência clara, e não um ruído estatístico isolado.
A máquina de rua e a guerra digital
O que mudou entre o primeiro levantamento pós-primeiro turno (dia 8) e agora? A campanha petista saiu do modo “salto alto” para o “vale-tudo”. Militantes foram às ruas, majoritariamente jovens, e a estrutura digital — batizada de “Exército de Lula” e capitaneada pelo deputado André Janones — replicou a estratégia de guerrilha algorítmica usada pelo lado adversário em 2018 e 2022.
O próprio candidato aderiu ao tom mais agressivo, abandonando a postura de “volta olímpica” para disputar voto a voto no terreno hostil das redes sociais. A reação tardia, porém, expôs uma fragilidade anterior.
O choque de realidade da cúpula petista
Durante quase dois anos, a direção do partido operou como se o bolsonarismo fosse um episódio superado. Subestimaram a capilaridade de um “partido de massas” de direita, ignoraram a linguagem digital e perderam a conexão com as dores econômicas imediatas — inflação, endividamento, custo de vida. Conselheiros palacianos, em sua maioria descolados da realidade, reforçaram o diagnóstico errado: a vitória seria “barbada”.
O despertar forçado trouxe de volta a noção de que política se faz na rua e no algoritmo, não apenas em gabinetes. A recuperação atual é fruto desse choque, mas o tempo curto até o dia 30 impõe um limite físico à conversão de engajamento em urna.
O que observar na reta final
Dois vetores definem os próximos dias: a capacidade de a direita superar o viés de sub-representação nas pesquisas (o “voto envergonhado” ou “voto oculto”) e a velocidade de transferência da melhora de avaliação para intenção de voto consolidada. A avaliação ruim é pedra no caminho da reeleição; ela começou a ser removida, mas o caminho ainda é íngreme. Quem acompanha o mercado deve monitorar a volatilidade do câmbio e da curva de juros nos próximos pregões: eles reagem mais à percepção de risco de virada do que às manchetes do dia.
