Metade do prazo de 90 dias se passou e a estratégia da Casa Branca para inundar o mercado com carne bovina importada e derrubar o preço da carne moída não saiu do papel. O volume extra autorizado mal entrou nos portos e o bolso do consumidor americano continua sem sentir alívio.
Em agosto, um decreto presidencial abriu uma cota de 300 mil toneladas métricas de aparas magras com tarifa reduzida, divididas em até 100 mil toneladas mensais entre setembro e novembro. A realidade, porém, mostra um abismo entre a caneta e o cais.
O gargalo nos números oficiais
Dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) revelam a fraqueza da adesão. Em setembro, entraram apenas 37.486 toneladas — pouco mais de um terço do teto mensal. Na primeira metade de outubro, o ritmo desacelerou ainda mais: 21.937 toneladas até o dia 19.
Para efeito de comparação, os EUA importaram 1,9 milhão de toneladas de carne bovina em todo o ano passado. A cota extra, mesmo se preenchida, representaria uma fatia pequena do fluxo total, mas sua execução pífia torna o impacto nulo.
Por que os importadores não aparecem?
Economistas apontam que grande parte do volume registrado em setembro entraria de qualquer forma, sem o decreto. James Mitchell, da Universidade do Arkansas, estima que entre 41% e 79% daquelas 37 mil toneladas já fariam parte do fluxo normal de comércio.
Ou seja: a “carne acessível” prometida pelo governo pode ser, em grande parte, apenas a rotina rebatizada. Não há sinal de que a tarifa reduzida tenha incentivado novos embarques vindos de Austrália, Brasil, Nova Zelândia ou Canadá — os principais fornecedores.
O desconto que não chega à gôndola
Trump “incentivou” varejistas a repassar 25% de desconto ao consumidor final. Em setembro, o preço médio de 500 g de carne moída caiu 1,9%, de US$ 6,92 para US$ 6,79. Um ano antes, custava US$ 6,32. A queda é marginal e sazonal: o fim da temporada de churrascos costuma pressionar os preços para baixo naturalmente.
Ted Schroeder, da Universidade Estadual do Kansas, explica o obstáculo técnico: as aparas importadas se misturam às nacionais nos frigoríficos sem rastreabilidade. Não existe etiqueta “carne do decreto”. Sem identificação, o supermercado não consegue aplicar desconto seletivo nem o consumidor saber o que está comprando.
- Cota autorizada: 300 mil t (100 mil t/mês)
- Entrada real (set): 37.486 t (37% da cota)
- Entrada real (out até dia 19): 21.937 t
- Queda varejo (set): 1,9% (US$ 0,13/lb)
- Preço ano anterior: US$ 6,32/lb
Rebanho em xeque e cálculo político
O decreto assustou pecuaristas. No dia da assinatura, o preço do gado vivo caiu 3,4%. Entidades do setor alertaram que a ameaça de intervenção constante faz o produtor enviar fêmeas para o abate em vez de retê-las para reprodução, encolhendo o rebanho futuro.
“Resolvem um problema de curto prazo e criam um de longo prazo na oferta”, resumiu Ford Drummond, presidente da Associação de Pecuaristas de Oklahoma. Os preços do gado se recuperaram depois, mas o sinal de alerta permanece.
Políticamente, a conta é delicada. Trump admitiu que o preço da carne ficou “inaceitável para o eleitor” às vésperas das eleições de meio de mandato. A base rural, historicamente republicana, não aceita bem a abertura de importações. A Casa Branca diz que o presidente “fez mais pela agricultura americana do que ninguém”, mas os números não corroboram a narrativa de vitória.
O que observar daqui para frente
Restam semanas para novembro. Se o ritmo não acelerar, a cota de 300 mil toneladas fechará com preenchimento abaixo de 20%. O atacado das aparas magras segue estável, o que indica ausência de pressão de oferta.
Para o investidor e o gestor de proteína animal, o recado é claro: intervenções pontuais de tarifa não resolvem fundamentos de custo (mão de obra, logística, gordura, marketing) nem criam rastreabilidade. O ciclo do gado dita o preço — e ele continua longo.
