Economia

2027: A conta que Lula ou Flávio vão deixar no seu colo (e no caixa da empresa)

Eleição 2027: Planalto com gráficos de déficit e famílias endividadas, herança fiscal para Lula ou Flávio
A bomba fiscal que o próximo presidente herdará em 2027, com 81,7% das famílias endividadas e economia estagnada.

Quem subir a rampa do Planalto em 5 de janeiro de 2027 herda uma bomba-relógio fiscal, uma economia freando em marcha lenta e 81,7% das famílias endividadas. O mercado cobra ajuste nas contas públicas agora; o eleitor cobra alívio no supermercado ontem. Nenhum dos dois favoritos mostrou, até aqui, como conciliar as duas pontas sem quebrar a outra.

Economistas ouvidos pela reportagem são unânimes: o debate eleitoral silenciou sobre o “como”. A fatura, porém, não espera posse nem lua de mel.

O rombo que ninguém quer fechar de verdade

A dívida bruta do governo geral bateu R$ 11,1 trilhões em agosto — 82,9% do PIB, maior nível desde a pandemia. Quando o gasto supera a arrecadação, o Tesouro rola a dívida a juros mais altos. Isso trava a queda da Selic, encarece o crédito e seca o investimento produtivo.

Flávio Bolsonaro (PL) acena com um “tesouraço” de 1,5% a 2% do PIB (R$ 190 bi a R$ 250 bi) em 18 meses, mas blinda reajuste real do mínimo, pisos de Saúde/Educação e aposentadorias atreladas ao salário-base. A conta fecha só cortando ministérios, comissionados e “supersalários”? Para Felipe Salto (Warren), não fecha — a economia relevante exige mexer em gastos obrigatórios e isenções tributárias.

Lula (PT), por sua vez, adicionou cerca de R$ 200 bilhões em despesas até 2030 só no pacote eleitoral (sem contar tarifa zero no transporte). A aposta é no “crescimento puxa arrecadação”. Rafaela Vitória (Banco Inter) resume: o mercado dá crédito inicial a Flávio pelo histórico Bolsonaro/Temer; a Lula cobra a fatura de quatro anos sem controle de gasto e promessas que reduzem receita (Desenrola 3.0, perdão de dívida, fim de bets, alta do Bolsa Família).

O consenso entre analistas: a realidade vai impor o ajuste pós-urna, seja quem for o eleito. O risco é a velocidade — corte brusco em 2027 joga a economia em recessão, alerta Salto.

O freio no PIB já está contratado para 2027

O Boletim Focus projeta 1,32% de crescimento no ano que vem; a 4intelligence vê algo próximo de 1%. Três vetores explicam a desaceleração:

  • Estímulo fiscal zero: União e Estados reduzem gastos em ano eleitoral.
  • Juros altos: Seguram investimento no primeiro semestre.
  • Agro em queda: Projeção de -0,7% no setor por causa do El Niño forte — “um monstro climático subestimado”, diz Bruno Imaizumi (4intelligence).

Isso bate no bolso do eleitor cedo. Popularidade baixa, Congresso hostil, reeleição ameaçada. Flávio promete dobrar a média de crescimento (2% → 4%) via licenciamento ambiental fácil, “revogaço” regulatório, desestatização e flexibilização trabalhista. Lula aposta no Estado indutor: Nova Indústria Brasil, Novo PAC 2, Plano de Transformação Ecológica, crédito ampliado (Pronampe, Procred 360, Acredita) e massa salarial crescente.

Imaizumi define o patamar: governo “regular” evita deterioração fiscal e cresce moderado; governo “bom” estabiliza contas e aprova reformas que elevam o potencial de crescimento. Ele é cético nos dois casos.

Bolso vazio, dívida recorde: o termômetro social

O salário mínimo de setembro (R$ 1.621) comprava 1,76 cestas básicas (Dieese/SP). Em 2019, comprava 2. O pico histórico foi 2,28 (março/2012). Poder de compra melhorou desde 2022, mas segue abaixo do pré-pandemia.

Endividamento das famílias recuou pela primeira vez no ano para 81,7% (CNC), mas o varejo e o agro pedem recuperação judicial em onda. As propostas:

Frente Lula (PT) Flávio Bolsonaro (PL)
Custo de vida Valorização real do mínimo; agricultura familiar (Plano Safra, PAA, ATER); baratear energia e combustíveis (Petrobras na distribuição) Reduzir impostos sobre consumo; “corredores logísticos inteligentes”; ampliar armazenagem; estimular fertilizantes nacionais
Endividamento Desenrola 3.0: comprar carteiras com até 90% de desconto, limpar R$ 150 bi até meados de 2028 Caixa recompra dívidas + carência de 6 meses (famílias) e 1 ano (empresas) — mercado chamou de “calote bancário”

Para Imaizumi, ambas são paliativas. Reduzir custo de vida de forma duradoura numa economia dolarizada exige valorizar o real — o que só vem com reformas estruturais. Endividamento só cai estruturalmente com juros menores, e juros menores exigem contas públicas equilibradas. O círculo se fecha no fiscal.

O que os economistas colocam na mesa (e ninguém promete na campanha)

Salto desenha um ajuste gradual factível:

  • Cortar 50% das emendas parlamentares.
  • Desindexar Previdência e benefícios do salário mínimo (reajuste pelo Executivo).
  • Submeter pisos de Saúde/Educação ao arcabouço fiscal (teto de 2,5% ao ano).
  • Revisão ampla de gastos tributários (Simples, Zona Franca, abatimentos IRPF, filantrópicas).
  • Fim dos supersalários.

Vitória aponta duas medidas-chave de credibilidade: desvincular benefícios/aposentadorias do mínimo e desvincular pisos de Saúde/Educação da receita.

O que observar daqui para a frente

Não espere anúncios no palanque. O sinal virá na primeira semana de governo: nomes da equipe econômica, primeira medida provisória fiscal, relação com Congresso (especialmente emendas e pautas-bomba) e reação do Banco Central nas expectativas de Selic e câmbio.

Se o ajuste for crível e gradual, a Selic cai no segundo semestre e a atividade retoma fôlego para 2028. Se houver hesitação ou “cavalo de pau”, a desaceleração vira recessão e o custo do crédito permanece proibitivo por mais tempo. Para o empresário e o investidor, a variável decisiva não é quem vence — é a velocidade e a profundidade do choque de realidade fiscal nos primeiros 90 dias.