Duas brasileiras quebraram barreiras em cabines que, por décadas, foram território quase exclusivamente masculino. Uma tornou-se a primeira mulher no mundo a comandar o Airbus A350; a outra, pioneira em 15 anos na operação cargueira da maior companhia aérea da América Latina. Suas trajetórias expõem lacunas persistentes — e números que ainda surpreendem.
O que leva uma profissional a acumular 20 mil horas de voo e outra a dedicar um voo inteiro ao transporte de cavalos? A resposta está menos no glamour e mais na engenharia de decisões que a aviação exige diariamente.
De comissária a recordista mundial em duas décadas
Claudine Melnik entrou na TAM em 1992 como comissária. Três anos depois, já era a primeira comandante mulher da aviação comercial brasileira. Em 2016, escreveu o nome na história global ao assumir o comando do A350, aeronave de última geração para rotas de ultra-longo alcance.
Hoje, aos 57 anos, pilota Boeing 777 e 787 partindo de Guarulhos para América do Norte, Europa e África. A bagagem técnica inclui passagens por Fokker 100, Airbus A330 e funções de instrutora e avaliadora. Mas ela resume: “O comando não é símbolo de poder, é compromisso com a segurança.”
A transição de navegação analógica para cockpits totalmente digitalizados marcou sua carreira. Para Claudine, a automação mudou ferramentas, não a essência: a comunicação entre tripulantes e a capacidade de decisão sob pressão continuam sendo o diferencial humano.
O lado invisível da aviação: cargas que respiram
Juliana Alba, 34, trilhou caminho distinto. Filha de comandante da LATAM Cargo, formou-se em Comércio Exterior e Administração antes de ir para a cabine. Aos 19 anos, decidiu que o ar era seu lugar. Tornou-se instrutora de voo e, em 2023, a primeira mulher em 15 anos a comandar um cargueiro da companhia.
Na operação de carga, o planejamento muda a cada voo. Medicamentos exigem controle de temperatura milimétrico. Frutas, ventilação constante. Cavalos, um protocolo inteiro de bem-estar animal — incluindo acompanhamento veterinário a bordo e ajustes de pressurização.
“Precisamos estar preparadas para mudanças o tempo todo”, diz Juliana. “A responsabilidade escala com a sensibilidade da carga.”
Os números que ainda gritam desigualdade
A LATAM tem hoje 94 pilotas — 4,1% dos 2.287 tripulantes técnicos. O percentual supera ligeiramente a média global de 4% reportada pela OACI (Organização da Aviação Civil Internacional). Em valores absolutos: para cada 24 comandantes e copilotos, apenas um é mulher.
- 94 pilotas na LATAM (dado atual)
- 4,1% do quadro técnico total
- 4% média mundial (OACI)
- 15 anos sem comandante mulher na carga até Juliana
Claudine aponta a autocobrança feminina como barreira adicional. Juliana enfatiza o acesso à formação. Ambas convergem: competência técnica e liderança não têm gênero.
O que observar daqui para frente
O Dia do Aviador (23 de outubro) trouxe holofote, mas a métrica real está nas próximas turmas de formação e nas políticas de retenção. A aviação projeta déficit global de pilotos nas próximas duas décadas. Ampliar o recrutamento feminino não é apenas questão de equidade — é necessidade operacional.
Para quem investe ou gere no setor, o sinal está dado: companhias que acelerarem a diversidade nas cabines terão vantagem na corrida por talentos escassos. As duas brasileiras provam que o teto de vidro já foi furado. Resta saber se a porta será mantida aberta.
