O último confronto direto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) acontece nesta sexta-feira (23), às 21h20, na TV Globo — a dois dias da votação que definirá a Presidência. A expectativa das duas campanhas é converter indecisos e abstencionistas do primeiro turno. Quem assistir verá um formato desenhado para forçar propostas, não apenas acusações.
No primeiro turno, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, uma frente de pouco mais de 2,2 milhões de votos. A pesquisa PoderData mais recente, divulgada ontem (22), aponta 51% a 49% para o senador nos votos válidos. A margem de erro é de 1,6 ponto percentual.
Três blocos, uma dinâmica inédita
Diferente do embate na Band, o debate da Globo terá estrutura em três tempos. No primeiro, as cinco regiões do país serão sorteadas: o candidato sorteado formula pergunta sobre a região ao adversário. Todas as regiões serão contempladas.
O segundo bloco dá poder de agenda aos presidenciáveis. Cada um escolhe seis de dez temas pré-definidos pela produção — SUS e ensino integral já confirmados entre eles. A seleção permite direcionar o confronto para terrenos favoráveis.
No terceiro, temas livres e considerações finais. A mediação caberá a César Tralli, com transmissão simultânea na GloboNews e no portal G1.
O que cada campanha quer corrigir
Estrategistas do PL avaliam que Flávio pontuou bem na Band, mas deixou escapar oportunidades na segurança pública. O foco em Lulinha e na lobista Roberta Luchsinger (investigados por fraudes no INSS) teria desestabilizado Lula. Aliados do senador cobram postura mais incisiva para ampliar a vantagem.
No PT, a autocrítica mira a dificuldade de Lula em fechar a mensagem final com pedido direto de voto. A oferta de abrir sigilos bancário e de mensagens foi bem avaliada internamente; a recusa de Flávio em fazer o mesmo, explorada. Petistas acreditam que o presidente cresceu após a fase inicial de trocas de acusações.
- PL: explorar segurança pública e “saidinhas” de presos; pressionar por respostas objetivas sobre programas sociais
- PT: transformar oferta de transparência em contraste; evitar dispersão em acusações laterais
- Ambos: produzir trechos virais para redes sociais — onde o eleitor indeciso costuma consumir o debate
O eleitor que não quer nenhum dos dois
O cenário não se resume a preferência. A mesma PoderData mostra 47% dos eleitores declarando que não votariam “de jeito nenhum” em Lula; 45% dizem o mesmo de Flávio. Para o cientista político Elias Tavares, a disputa real é por quem é “menos pior”.
O debate da Band, na leitura de Tavares, falou para convertidos. Ataques mobilizam bases, mas não necessariamente conquistam quem ainda hesita. A professora Lilian Carvalho (FGV) alerta: candidatos precisam antecipar como suas falas serão recortadas e compartilhadas. “Pregam para convertidos”, resume.
O vácuo do primeiro turno pesa
Antes de 4 de outubro, não houve debate entre os dois finalistas. A Band foi boicotada por ambos; a Globo cancelou seu encontro uma hora antes do horário — Lula preferiu o Flow Podcast, Flávio desistiu após liminar da ministra Estela Aranha (TSE). O vácuo de confronto direto na primeira fase torna o embate de sexta ainda mais decisivo.
O que observar nas próximas 48 horas
Três variáveis definirão o impacto do debate na urna: a capacidade de cada candidato produzir um momento “viral” positivo (não apenas ataque ao rival), a clareza nas propostas para saúde e educação — temas de apelo transversal — e o tom nas considerações finais, última fala direta ao eleitor antes do silêncio de sábado. A pesquisa de boca de urna de domingo começará a revelar se o formato cumpriu a função de mover os indecisos.
