Cultura

O movimento silencioso que rachou o mercado livreiro: 60 lojas, 10 estados e uma aposta arriscada…

Fachada de livraria independente com faixa do Movimento das Livrarias pelo Brasil, livros expostos e pessoas entrando
Livraria integrante do movimento que reuniu 60 lojas em 10 estados apoiando Lula no 2º turno de 2022.

Um coletivo de 60 livrarias independentes rompeu a neutralidade histórica do setor e declarou apoio público a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de 2022. A articulação, batizada de “Movimento das Livrarias pelo Brasil”, expõe uma fratura exposta no mercado editorial brasileiro — e levanta dúvidas sobre os reflexos comerciais de tomar partido em um pleito polarizado.

Tudo começou com um ato individual de Elisa Quadros, dona da Lúcia Livraria, em Anchieta (ES). Em setembro, ela publicou uma foto da Constituição Federal com a frase “nesse livro ninguém mexe”. A postagem viralizou no nicho e virou gatilho para algo maior.

A publicitária que transformou indignação em campanha coordenada

Agatha Kim, sócia da livraria paulistana Aigo e veterana do mercado publicitário, viu na mobilização espontânea uma oportunidade de organização. Ela estruturou a ação: criou peças padronizadas, definiu hashtags como “Livro é futuro” e “Quem lê vota pelo Brasil” e sincronizou os disparos nas redes sociais.

O resultado? Alcance simultâneo em lojas de dez estados — de São Paulo e Rio Grande do Sul à Bahia e Mato Grosso do Sul. Nomes como Megafauna, Baleia, Blooks, Circulares e LDM aparecem na lista. Redes grandes como Leitura, Curitiba e Vila ficaram de fora.

O que os números revelam sobre o peso real do movimento

A Associação Nacional de Livrarias (ANL) estima mais de mil lojas do tipo no país. Ou seja: o movimento representa cerca de 6% do universo total. Parece pouco, mas a capilaridade geográfica e o perfil das participantes — lojas de rua, formadoras de opinião local — amplificam o ruído.

Veteranos do setor não recordam precedente semelhante. A ANL, presidida por Alexandre Martins Fontes, manteve postura institucional neutra. Mas o próprio Alexandre admitiu publicamente: “não cansa de fazer o L”. A Livraria Martins Fontes, da qual é dono, integra o coletivo.

As instituições do livro escolheram o silêncio estratégico

Duas das maiores entidades do setor recusaram-se a embarcar:

  • Câmara Brasileira do Livro (CBL): organizadora da Bienal de São Paulo e do Prêmio Jabuti, emitiu nota reforçando caráter “plural e diverso” e enviou carta aberta aos dois candidatos com propostas técnicas — PNLL, bibliotecas, direitos autorais, IA.
  • Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL): responsável pela Bienal do Rio, adotou linha idêntica: “entidade apartidária”, diálogo com “diferentes partidos e esferas”.

A exceção coube à Liga Brasileira de Editoras (LIBRE), que congrega selos independentes e se posicionou explicitamente a favor da democracia.

O racha no balcão: quando o cliente vira opositor

Nos comentários das postagens coordenadas, leitores e clientes frequentes criticaram o posicionamento político das lojas. Relatos de boicotes e unfollows pipocaram. O sintoma expõe um dilema comercial: em um mercado de margens apertadas e fidelidade local, declarar voto pode custar caro — ou fidelizar um público alinhado.

O setor editorial abriga alas conservadoras e empresários simpáticos ao bolsonarismo, menos vocais nas redes. O silêncio deles, até aqui, fala tanto quanto as postagens do movimento.

O que observar daqui para frente

Pós-eleição, a CBL promete manter “diálogo com os Poderes públicos e representantes eleitos” em defesa de “políticas públicas duradouras”. A carta conjunta com Abrelivros e SNEL segue na mesa de quem vencer: continuidade dos programas de aquisição, fortalecimento do PNLL, expansão de bibliotecas, formação de leitores e proteção autoral na era da IA.

Para o empresário do livro, a lição prática é clara: neutralidade institucional protege a entidade, mas não impede que marcas individuais assumam riscos calculados. A conta — em reputação, fluxo de caixa e relacionamento com o poder público — será apresentada nos próximos trimestres. Quem apostou alto no palanque certo pode colher editais, verbas e visibilidade. Quem errou, ou se expôs sem necessidade, carrega a fatura sozinho.