Cultura

60 livrarias fazem o inédito… e o mercado editorial racha ao meio

Vitrines de livrarias independentes com cartazes do Movimento das Livrarias pelo Brasil apoiando Lula
Livrarias independentes exibem apoio político inédito nas vitrines durante segundo turno

Um grupo de 60 livrarias independentes espalhadas por dez estados acaba de romper uma regra não escrita do varejo literário: neutralidade política. O “Movimento das Livrarias pelo Brasil” distribui posts padronizados pedindo voto em Lula (PT) no segundo turno, comparando programas de governo e destacando a ausência de termos como “livro” e “leitura” na plataforma do adversário. A pergunta que fica é quanto custa, para um negócio de margens apertadas, trocar a discrição pelo ativismo.

Tudo começou em setembro, quando Elisa Quadros, dona da recém-inaugurada Lúcia Livraria em Anchieta (ES), publicou uma foto da Constituição com a frase “nesse livro ninguém mexe”. A repercussão chamou a atenção de Agatha Kim, sócia da paulistana Aigo e ex-publicitária, que transformou o gesto individual em ação coordenada. Hoje, redes como Megafauna e Bibla (SP), Baleia e Taverna (RS), Blooks e Leonardo da Vinci (RJ), Circulares (DF), LDM (BA) e Hamor (MS) compartilham o mesmo discurso.

O tamanho do tabuleiro e quem ficou de fora

A Associação Nacional de Livrarias (ANL) estima mais de mil lojas do tipo no Brasil. Veteranos do setor não lembram de mobilização eleitoral comparável. Redes maiores — Leitura, Curitiba, Vila — não aderiram. O movimento é, por enquanto, um fenômeno das independentes de rua, aquelas que dependem de curadoria e identidade para sobreviver ao algoritmo das grandes plataformas.

Em números:

  • 60 livrarias ativas na campanha coordenada
  • 10 estados representados
  • 1.000+ lojas independentes no país (dado ANL)
  • 0 redes de grande porte participando

O jogo das instituições: neutralidade oficial, posicionamento pessoal

A ANL, presidida por Alexandre Martins Fontes, declara não poder se posicionar como entidade. Mas a Livraria Martins Fontes integra o movimento e o próprio Alexandre admite: “não cansa de fazer o L”. A Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora do Jabuti e da Bienal de São Paulo, emite nota reafirmando apartidarismo e pluralidade. Em setembro, CBL, Abrelivros e SNEL enviaram carta aberta aos candidatos com pautas prioritárias: continuidade dos programas de aquisição de livros, fortalecimento do PNLL, ampliação de bibliotecas, formação de leitores e direitos autorais na era da IA.

O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), responsável pela Bienal do Rio, adota linha semelhante. Já a Liga Brasileira de Editoras, que reúne casas independentes, é das poucas a se manifestar explicitamente a favor da democracia.

O risco do balcão: quando o cliente vira opositor

O mercado editorial não é monolítico. Alas conservadoras e empresários alinhados ao bolsonarismo existem — apenas são menos vocais. Nos comentários das publicações do movimento, leitores e clientes declarados anunciam boicotes. O sintoma expõe a fissura de um pleito descrito como o mais apertado desde a redemocratização. Para o livreiro, a equação é simples e perigosa: posicionar-se pode atrair um público fiel e afugentar outro. Não se posicionar, num momento de polarização extrema, também é escolha — e pode ser lida como cumplicidade.

O que observar daqui para frente

Passadas as urnas, a CBL promete manter diálogo com os eleitos em defesa de “políticas públicas duradouras para o setor”. A carta de setembro segue válida como termômetro: quem ganhar herdará cobranças concretas sobre PNLL, bibliotecas escolares, PNLD e proteção autoral. Para o investidor ou gestor do setor, o recado está dado — a neutralidade institucional não impede a mobilização de base, e o varejo independente mostrou disposição para transformar vitrine em palanque. O próximo capítulo não é eleitoral: é orçamentário.