A Hermès reportou alta de 4,3% na receita do terceiro trimestre, totalizando 4,1 bilhões de euros, mas o número ficou abaixo da projeção de 5,2% do consenso. A reação foi imediata: as ações recuaram quase 6% na abertura, acumulando queda de 39% em 2026. O lucro continua crescente, mas a estrutura por trás dele acendeu um alerta vermelho para investidores.
O abismo entre bolsas e o restante do portfólio
A divisão de artigos de couro — motor histórico da marca — acelerou 10,8% no período. Em contrapartida, as demais categorias derraparam de forma sincronizada, ampliando uma assimetria que analistas classificam como sem precedentes.
- Roupas e acessórios: queda de 2% (segunda maior divisão);
- Relógios: recuo de 6%;
- Seda e tecidos: alta tímida de 1,4%.
Para a Jefferies, a aceleração do couro mascara uma deterioração estrutural nas outras verticais. O mercado questiona até quando um único pilar sustenta o valuation premium da casa.
China e Oriente Médio: os dois freios geográficos
A Ásia-Pacífico (ex-Japão) estagnou. Na China continental, o tráfego nas lojas caiu e derrubou moda, relógios e calçados. O CFO Eric du Halgouët admitiu que outubro mantém a mesma dinâmica fraca, embora reafirme confiança no potencial de médio e longo prazo.
No Oriente Médio, a receita encolheu 4,5%. A gestão credita o recuo ao conflito em curso entre EUA e Irã, que inibe o turismo de alto gasto na região. Enquanto isso, Europa (ex-França) saltou 9,5% puxada pela nova flagship na Bond Street, e Américas avançaram 8,8%.
O setor inteiro sangra, mas a Hermès sangra caro
A LVMH cresceu apenas 1% no trimestre e vê suas ações caírem 39% no ano. A Kering, dona da Gucci, perde 29%. A Richemont, blindada por joias, sobe míseros 1,5%. O prêmio de valuation da Hermês — antes inquestionável — passa a ser debatido: faz sentido pagar caro por uma empresa que cresce pouco acima da inflação e depende de uma única categoria?
O CEO Axel Dumas insiste na tese de “crescimento rentável” e reafirma a meta de médio prazo. A aposta estratégica recai sobre a moda masculina de Grace Wales Bonner e o retorno à alta-costura em 2027, esperado para criar um “efeito halo” sobre as categorias fracas.
O que observar daqui para frente
A divergência entre couro e não-couro é a métrica crítica dos próximos balanços. Se a moda não reagir com as novas coleções e o fluxo chinês não recuperar tração, a narrativa de “exceção imune a ciclos” perde força. Investidores devem monitorar: 1) vendas de novembro na China; 2) recepção comercial da linha Wales Bonner; 3) evolução da margem operacional sem o vento a favor do mix exclusivo de bolsas.
