O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuário recua para R$ 1,44 trilhão em 2026, queda de 3% sobre o ano anterior. Sem o desempenho da soja e da pecuária bovina, o resultado seria drasticamente pior. Dois pilares sustentam o setor enquanto culturas tradicionais derretem.
Soja bate recorde e puxa receita para cima
A oleaginosa caminha para uma safra próxima de 180 milhões de toneladas, gerando R$ 353 bilhões — alta de 3,3%. O preço reagiu forte no segundo semestre: saiu de R$ 125 a saca no Paraná em janeiro para média de R$ 154 em setembro, segundo o Cepea.
A Abiove revisou projeções diante da demanda aquecida. O processamento interno deve fechar em 64 milhões de toneladas, podendo atingir 66 milhões no próximo ciclo. As exportações rendem US$ 60 bilhões neste ano, acima dos US$ 53 bilhões de 2025, com estimativa de US$ 69 bilhões para 2025.
Boi gordo dispara 17% e impulsiona pecuária
A bovinocultura rende R$ 253 bilhões, crescimento de 11% puxado pela demanda externa. A arroba, que valia R$ 321 em janeiro, fechou o mês cotada a R$ 377 — e chegou a R$ 380 na quarta-feira (21).
Esse movimento reflete ciclo de alta de preços sustentado por compradores internacionais mais agressivos. O efeito direto aparece na receita dentro da porteira, compensando perdas em outras proteínas.
O peso dos dois gigantes no resultado final
Juntos, soja e bovinos respondem por 42% de todo o VBP calculado pelo Ministério da Agricultura (17 lavouras + 5 pecuárias). Veja o contraste com os demais:
- Milho: R$ 162 bi (-3%)
- Cana-de-açúcar: R$ 112 bi (-7%)
- Trigo: -28%
- Arroz: -24%
Mas o choque real está nas culturas de alto valor unitário.
O lado escondido: cacau, laranja e café despencam
Após ciclos de preços recordes, três culturas devolveram ganhos com força:
- Cacau: -56% no VBP
- Laranja: -48%
- Café: -10%
A retração de preços tirou bilhões da receita dos produtores. No café, a queda vem após dois anos de valorização excepcional; na laranja, problemas fitossanitários e oferta global pressionam; no cacau, a correção vem de patamares históricos.
O que observar daqui para frente
A Abiove projeta novo recorde de divisas com soja em 2025 (US$ 69 bi), o que pode segurar o VBP total mesmo se milho e cana não reagirem. No arroz, a Abiarroz lança campanha de consumo — a Conab estima 10,8 milhões de toneladas/ano no mercado interno — tentando reverter a queda de 24%.
Para o investidor, o sinal claro: a concentração de renda em duas cadeias aumenta o risco sistêmico. Uma quebra de safra de soja ou embargo sanitário no boi gordo derrubaria o agregado sem colchão de amortecimento dos demais itens.
