A Meta provocou um terremoto nos mercados ao admitir que precisará captar “centenas de bilhões de dólares” para sustentar sua infraestrutura de inteligência artificial. O anúncio derrubou as ações da empresa em 7% e evaporou US$ 124 bilhões em valor de mercado em uma única sessão.
O choque contagiou todo o setor de tecnologia. O Nasdaq 100 recuou 2,9%, enquanto o S&P 500 perdeu 1,2%. Investidores correram para a segurança dos títulos do Tesouro americano, empurrando o rendimento da nota de dez anos para abaixo de 5% — o melhor desempenho diário desde meados de 2024.
Por que o mercado entrou em pânico
A declaração da Meta reacendeu o debate sobre a sustentabilidade do boom de IA financiado por dívida. Em documento oficial, a empresa alertou para um “ambiente cada vez mais desafiador para captação de recursos”, citando a concorrência direta da Alphabet e as futuras ofertas bilionárias de Anthropic e OpenAI.
Jon Hill, estrategista-chefe de inflação do Barclays, foi direto: “A alta dos Treasuries hoje não responde a nenhum dado econômico fundamental. Tem tudo a ver com possíveis fissuras na aposta em inteligência artificial”.
O efeito dominó nos semicondutores e além
Fabricantes de chips, queridinhos do ano, lideraram as perdas. O índice de semicondutores da Filadélfia despencou quase 7%. Operadores relataram vendas intensas em papéis que acumulavam fortes valorizações recentes.
Outros nomes de peso também sangraram:
- SpaceX: -9,1%, apagando ganhos da semana
- Tesla: -3,1%
- CDS da Meta (5 anos): spread subiu para 116 pontos-base, recorde histórico
Petróleo e Europa ampliam a aversão ao risco
O cenário piorou com a escalada geopolítica. O Brent saltou 4% para US$ 113,17 o barril após ataques houthis à Arábia Saudita. Washington ordenou a retirada de parte de seu pessoal do reino, elevando o prêmio de risco global.
Na Europa, o Stoxx 600 caiu 1,1%. O rendimento dos títulos franceses de dez anos superou 5,08% — nível inédito desde 2002. O spread sobre os Bunds alemães atingiu 1,7 ponto percentual, o maior desde a crise da dívida soberana de 2011. Itália (1,2 pp) e Bélgica (1,1 pp) também viram prêmios dispararem.
O que o Tesouro americano e o BCE sinalizam
Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, tentou acalmar os ânimos em reunião privada: não vê “problema sistêmico” no boom de IA. Já Jens Eisenschmidt, ex-BCE e hoje no Morgan Stanley, sugere que uma pausa no aperto quantitativo europeu — reinvestindo vencimentos de títulos — aliviaria a pressão nos rendimentos de longo prazo.
Por enquanto, o mercado de CDS mostra que a proteção contra calote de big techs nunca esteve tão cara. A mensagem é clara: a farra de endividamento para comprar GPUs e construir data centers começa a cobrar seu preço.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes merecem atenção redobrada: (1) a execução do plano de captação da Meta e seu custo de funding; (2) a resposta do BCE à fragmentação dos spreads na zona do euro; (3) a evolução do petróleo, que pode forçar o Fed a manter juros altos por mais tempo. Quem tem exposição a dívida corporativa de tecnologia ou ações de semicondutores deve revisar cenários de estresse — a correção pode estar apenas começando.
