A associação da indústria (Abiove) projeta queda de 0,8% no volume de soja em grão embarcado no próximo ano, para 113 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, a receita total do complexo soja deve bater US$ 69,3 bilhões, novo recorde histórico. A explicação para o paradoxo está no quintal de casa.
O processamento interno vai consumir uma fatia inédita da safra. O esmagamento deve atingir 66 milhões de toneladas, alta de 3,8% sobre 2026, puxado por farelo para ração animal e óleo para biodiesel. Menos grão saindo pelo porto significa mais valor agregado ficando no país — ou virando combustível.
O motor invisível: esmagamento recorde e o fator B16
A indústria não está apenas processando mais; ela está se antecipando a uma mudança regulatória. A expectativa de elevação da mistura obrigatória de biodiesel para 16% (B16) a partir de março de 2025 altera a matemática do óleo de soja.
Segundo Daniel Furlan Amaral, diretor da Abiove, o ritmo forte de esmagamento reflete a “resposta ágil” da indústria à demanda nacional. O óleo de soja, antes exportado em volumes maiores, será retido para atender ao mandato de biocombustível. A projeção aponta 7,8 milhões de toneladas de óleo destinadas só ao biodiesel em 2027.
Produção mal acompanha o apetite interno
Enquanto a moagem avança quase 4%, a safra brasileira deve crescer apenas 0,7%, chegando a 181,6 milhões de toneladas (estimativa Conab). O cenário considera:
- Efeitos do El Niño: chuvas irregulares no Norte e calor excessivo;
- Limite de expansão de área plantada por custos de insumos e terra;
- Produtividade pressionada por janelas climáticas mais curtas.
Essa diferença — oferta quase estática versus demanda interna acelerada — comprime o excedente exportável. A China, principal compradora, sentirá a oferta mais restrita justamente quando o gigante asiático busca diversificar origens.
Farelo e óleo: os novos protagonistas da balança
O grão perde espaço, mas os derivados ganham peso. A Abiove desenha um mapa de fluxos invertidos para 2027:
- Farelo: produção de 50,8 milhões de toneladas (+3,8%); exportação recorde de 26,3 milhões de toneladas (+4%).
- Óleo: produção de 13,27 milhões de toneladas (+3,7%); exportação cai 2,6% para 1,9 milhão de toneladas, drenada pelo biodiesel.
A Índia, grande destino do óleo bruto, verá menos produto disponível. O farelo, por outro lado, reforça o Brasil como celeiro de proteína para a pecuária global.
O ajuste fino de 2026 e o sinal de alerta
A entidade também revisou para baixo a projeção de exportação deste ano: 113,9 milhões de toneladas, 1,1 milhão a menos que a estimativa de setembro. Ainda seria recorde frente a 2025 (108,18 mi t), mas o corte sinaliza que a logística ou a comercialização não fluíram como o esperado.
Esse ajuste serve de termômetro: a transição de um modelo baseado em exportar commodity bruta para um de maior industrialização doméstica cria gargalos. O porto escoa menos navios de grão, mas a indústria demanda mais energia, caminhões e armazenagem no interior.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o cenário de receita recorde se confirma ou se o aperto de oferta gera volatilidade: a confirmação do B16 em março sem adiamentos; o comportamento do clima na safra 2025/26 (La Niña ou neutralidade); e a disposição da China em pagar prêmios maiores pelo grão escasso. Para o investidor, a aposta deixa de ser apenas no volume embarcado e passa a ser na capacidade da indústria de converter soja em margem — seja no farelo, no óleo ou no biodiesel.
