Economia

O telefonema que expõe o jogo de bastidores entre Flávio, Flamengo e o futuro das bets

Flávio Bolsonaro ao celular com escudo do Flamengo e fichas de aposta ao fundo
O telefonema que revela a negociação entre política, Flamengo e o futuro das bets no Brasil

Um dia após a medida provisória que derrubou as apostas online no Brasil, o celular do presidente do Flamengo tocou. Do outro lado, Flávio Bolsonaro — então líder nas pesquisas — prometia uma “solução” para clubes e casas de apostas, sem garantir a volta da atividade. A conversa, revelada por três fontes próximas à campanha e ao futebol, escancara um tabuleiro onde política, dinheiro e poder se confundem.

O que está em jogo não é apenas o patrocínio na camisa do Mengão. É um mercado que movimenta bilhões, uma investigação da Polícia Federal e o voto de milhões de torcedores-eleitores. Entenda por que esse telefonema pode ditar os rumos do setor nos próximos anos.

O que foi dito — e o que ficou nas entrelinhas

Segundo os relatos, Flávio tranquilizou Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmando que encontraria uma saída para os times e as bets caso vencesse a eleição. Não houve, contudo, compromisso explícito de revogar a proibição. A linguagem cuidadosa sugere uma estratégia: acenar ao dinheiro do futebol sem comprar briga com o eleitorado majoritariamente contrário às apostas.

Datafolha de 1º de outubro mostrava 78% de apoio ao fim das bets. Nesse cenário, qualquer candidato que defenda abertamente a volta do setor arrisca alienar quase oito em cada dez votantes. Flávio, que já associou Lula ao “jogo do tigrinho” e votou contra a regulamentação em 2023, agora tenta caminhar na corda bamba.

O dinheiro que move as peças

As apostas online entraram no Brasil no governo Temer (2016-2018), operaram sem regras na gestão Bolsonaro (2019-2022) e foram regulamentadas por Lula em 2023 com foco em tributação e controle. Hoje, são a principal fonte de receita publicitária de clubes e veículos de comunicação.

  • Flamengo: ingressou como parte na ação no STF contra a MP (relator: ministro Luiz Fux) e estampou “Proibir não é proteger” no espaço nobre da camisa.
  • CBF: não se posicionou publicamente, mas o presidente Samir Xaud articulou o boicote à reunião com o governo.
  • Centrão no Congresso: parlamentares já sinalizam que podem liberar as bets após as eleições.

O clube da Gávea é o mais ativo na defesa do setor, mas a simpatia política da maioria dos dirigentes por Flávio é notória. Quatro fontes do futebol confirmam: há expectativa real de decisões favoráveis aos times se ele vencer.

A sombra da investigação

Enquanto faz acenos públicos e privados, Flávio é alvo de inquérito da Polícia Federal. A suspeita: ser sócio indireto da Best Bet, em parceria com o advogado Willer Tomaz — que, sozinho, movimentou R$ 5 bilhões em apostas em 2025, tornando-se o maior apostador do país naquele ano.

A campanha não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o telefonema a Bap, nem sobre a investigação. O Flamengo também silenciou. A assessoria do clube nega apoio formal a qualquer candidato.

O efeito rebote nas urnas

No primeiro turno, Flávio obteve 47,03% contra 45,16% de Lula. A expectativa petista era capitalizar a rejeição às bets, mas o tiro saiu pela culatra: setores prejudicados (clubes, mídia, usuários) reagiram com força. Lula, derrotado, passou a evitar o tema — avaliação interna indica que o ganho eleitoral foi menor que o custo político.

Dias após o veto, Flávio publicou enquete no X sugerindo que flamenguistas votavam mais nele. No Instagram, incentivou o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, a declarar apoio. A coordenação de campanha manteve contatos com o Flamengo também após o primeiro turno.

O que observar daqui para frente

A medida provisória tramita no Congresso, mas sua sorte real será decidida no pós-eleição. Três vetores merecem atenção: o julgamento da ação no STF (onde o Flamengo é parte), a disposição do centrão para pautar a liberação das bets e o desfecho da investigação da PF sobre os laços de Flávio com a Best Bet.

Para quem gere negócios no ecossistema do futebol ou da mídia esportiva, a lição é clara: a regulamentação das apostas no Brasil não será definida pelo que diz a lei hoje, mas por quem sentar na cadeira presidencial em 2027 e quais alianças ela exigir. O telefonema de setembro foi apenas a primeira jogada visível de uma partida que está longe do fim.