Em 2016, Donald Trump afirmou que poderia atirar alguém na Quinta Avenida sem perder votos. A previsão hiperbólica se confirmou: escândalos que destruíam carreiras políticas tradicionais apenas fortaleciam sua base. O mesmo padrão reaparece hoje no Brasil, com consequências diretas para quem analisa cenários eleitorais e riscos institucionais.
A resistência de Flávio Bolsonaro (PL) às denúncias acumuladas — mensagens com Daniel Vorcaro, investigação sobre Willer Tomaz, histórico de rachadinhas — não é um caso isolado. É a manifestação brasileira de um fenômeno documentado nos EUA: quando a identidade política vira identidade afetiva, fatos negativos são processados como ataques ao grupo, não como informações para decisão de voto.
O mecanismo por trás da blindagem
O cientista político Carlos Melo, do Observatório da Política do Insper, aponta três pilares que sustentam essa dinâmica no caso Flávio:
- Antipetismo funcional: a rejeição a Lula e ao PT opera como escudo; o eleitor vota “contra” mais do que “a favor”
- Legado Bolsonaro: o sobrenome carrega capital político herdado, não construído individualmente
- Narrativa de perseguição: instituições e imprensa vistas como hostis transformam denúncias em provas de que “o sistema” ataca o candidato
Não se trata de desconhecimento dos fatos. Pesquisas mostram que eleitores expostos às denúncias mantêm a intenção de voto porque a avaliação de custo-benefício muda: o “mal maior” (o adversário) justifica tolerar falhas no candidato preferido.
O paralelo com 2016: dados que explicam a repetição
Na campanha americana, Trump enfrentou:
- Gravação “grab by the pussy” (outubro/2016) — líderes republicanos retiraram apoio; ele chamou de “conversa de vestiário”
- Recusa em divulgar declarações fiscais — quebrou tradição de décadas
- Processos da Trump University e investigação de interferência russa
Em todos os casos, a estratégia foi a mesma: inverter a acusação, posar de vítima do establishment e consolidar a base. O resultado: 62,9 milhões de votos e a presidência.
Por que isso importa para o ambiente de negócios
A previsibilidade regulatória e a estabilidade institucional dependem de mecanismos de accountability que funcionem. Quando denúncias graves deixam de ter peso eleitoral, o custo reputacional de condutas ilícitas cai — para políticos e para agentes privados que orbitam esse poder.
O caso Vorcaro ilustra: mais de 70% das interações do ex-banqueiro em celular apreendido pela PF foram com membros do governo Bolsonaro; 9 em cada 10 com nomes da direita. A densidade dessas conexões sugere canais de influência que operam à margem da transparência formal.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis definirão se o efeito Teflon se sustenta ou racha:
- Desdobramentos da PF sobre Willer Tomaz: Flávio figura como “usuário master” de conta vinculada a empresa do advogado; se houver denúncia formal, testa-se o limite da blindagem
- Estratégia do adversário: Lula também tem alta rejeição; a campanha petista precisa converter antipetismo em voto positivo, não apenas em voto contra Flávio
- Reação do centro político: se partidos de centro-direita não apresentarem alternativa viável, a polarização garante o teto de imunidade eleitoral
Para investidores e gestores, o sinal claro é: não apostem na punição eleitoral como freio a riscos regulatórios ou reputacionais. O planejamento de cenários deve considerar que a accountability pelo voto está, no mínimo, atrasada — e, no pior caso, descalibrada.
