A família Batista, controladora da JBS e da Eldorado, manteve por quase uma década uma fatia bilionária de seu patrimônio em fundos geridos pela Reag — instituição liquidada pelo Banco Central em 2025. Onze veículos somavam R$ 25,7 bilhões em setembro do ano passado, todos sob gestão e administração da casa fundada por João Carlos Mansur. A saída ocorreu apenas entre fevereiro e março deste ano, dias antes da liquidação definitiva.
O que levou os donos da maior processadora de proteína do mundo a confiar R$ 25 bilhões a uma gestora que, em 2018, ocupava o 42º lugar no ranking da Anbima com apenas R$ 12,2 bilhões? A resposta passa por vetos bancários, expansão meteórica e dois dos maiores escândalos financeiros recentes do país.
O início: portas fechadas nos grandes bancos
Em 2017, os irmãos Joesley e Wesley Batista enfrentavam investigações da Polícia Federal no âmbito da Lava Jato. Bancos tradicionais fecharam as portas para a dupla. A Reag, então uma gestora de médio porte, tornou-se a alternativa viável para estruturar o patrimônio familiar.
Naquele momento, cinco fundos dos Batistas já concentravam R$ 6,4 bilhões — mais da metade dos ativos da Reag no ranking da Anbima. A parceria coincidiu com a escalada da gestora: sete anos depois, em agosto de 2025, a Reag figurou entre as dez maiores do Brasil, com R$ 369,7 bilhões sob gestão. Desse total, R$ 19,9 bilhões pertenciam à família Batista.
O vizinho problemático: Banco Master
A Reag não atendia apenas os Batistas. O Banco Master, liquidado pelo BC em novembro de 2024, era outro cliente de peso. A quebra do Master gerou uma conta de R$ 40,6 bilhões para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — valor que sobe a R$ 51,8 bilhões ao incluir Will Bank e Banco Pleno.
Essa proximidade não passou despercebida. Quando a operação Carbono Oculto foi deflagrada em agosto de 2025, investigando esquema bilionário de fraudes fiscais e lavagem de dinheiro ligado ao PCC, a Reag tornou-se alvo central. A operação Compliance Zero, focada nas fraudes do Master, também atingiu estruturas do grupo Reag.
Fundos dos Batistas: sem relação com os escândalos
É fundamental separar as coisas: os fundos da família Batista não têm qualquer relação com a operação Carbono Oculto nem com o caso Master. Estruturas de fundos são comumente usadas para sucessão patrimonial, proteção de ativos e eficiência tributária — práticas legais e amplamente adotadas por grandes grupos familiares.
A composição dos veículos, contudo, revela a engenharia por trás do patrimônio:
- FIP Pinheiros (R$ 11,4 bi): principal veículo, detém ações da J&F Holding. Cotas divididas entre Colorado Investment Holdings (Delaware, EUA) e as holdings pessoais JJMB (Joesley) e WWM (Wesley).
- Outros fundos: ações da J&F Invest (Luxemburgo), precatórios, participação na Flora, empréstimos e ativos de energia.
- Três fundos das irmãs (VLBM, VNMB, VVMB): cada um carrega créditos de R$ 454 milhões contra Joesley e Wesley, referentes à venda de suas participações na J&F.
A migração silenciosa para Planner e Veritas
Entre fevereiro e março de 2025, assim que suspeitas sobre a Reag vieram a público, a família moveu toda a estrutura. A administração foi para a Planner; a gestão, para a Veritas Capital Management.
Curiosamente, a Planner também está sob investigação da PF por aportes da Rioprevidência em letras financeiras do Banco Master. A instituição afirma que a relação de fundos administrados é pública via CVM, mas a identidade dos cotistas é protegida por sigilo legal.
O que a J&F diz sobre tudo isso
Em nota, a holding afirma que os fundos foram criados em momentos distintos para atender necessidades de negócios — não como uma estrutura única de finalidade específica. Todos cumprem regras setoriais, são registrados e prestam contas aos órgãos de controle. A transparência, diz a J&F, é o que permite a confiança de investidores globais em suas ações e títulos de dívida.
Sobre os precatórios no fundo Laguz, a holding classifica o investimento como “fração irrelevante do capital do grupo” voltada à diversificação e rentabilização de caixa.
O que observar daqui para frente
A liquidação da Reag e a migração dos fundos Batista fecham um ciclo, mas abrem perguntas relevantes para quem acompanha o mercado de gestão de fortunas no Brasil:
- Como a CVM e o BC vão tratar administradoras que atendem clientes de alto risco reputacional?
- O sigilo sobre cotistas em fundos de família continuará blindando estruturas complexas?
- A Veritas e a Planner conseguirão manter a segregação entre administração e gestão sem conflitos?
Para investidores e profissionais de compliance, o caso reforça a necessidade de due diligence contínua sobre prestadores de serviço — não apenas no momento da contratação. O tamanho do gestor ou sua ascensão no ranking não substituem a análise de governança, controles internos e exposição a clientes sensíveis.
