Uma engenheira agrônoma de 29 anos transformou R$ 600 e uma garagem em uma marca premiada internacionalmente — e acaba de entrar para a lista das 100 Mulheres Poderosas do Agronegócio da Forbes Brasil. O que começou como experimento acadêmico hoje dita tendências em um mercado que movimenta milhões.
Giulia Fabrin Scussel, natural de Chapecó (SC), não herdou tradição nem capital. Ela apostou no hidromel, bebida fermentada de mel, água e levedura com mais de 10 mil anos de história. A aposta rendeu seis medalhas no Brasil Cup 2025, maior concurso de bebidas da América Latina, e o Prêmio Inovação Catarinense da Fapesc.
Da sala de aula para o tanque de fermentação
Mestre em ciências pela UFSC, Giulia testou receitas durante a graduação junto a colegas de turma. Em 2020, o grupo fundou a Néctar Hidromel, primeira hidromelaria de Florianópolis. O investimento inicial — R$ 600 — cobriu insumos básicos e embalagens artesanais.
Hoje, a produção combina mel catarinense a ingredientes nativos: butiá, tangerina com gengibre, chá-mate e limão. O teor alcoólico varia entre 4% e 14% vol, posicionando a marca entre cervejas artesanais e vinhos leves. A distribuição atende bares e lojas especializadas em Santa Catarina.
Por que o hidromel voltou a chamar atenção do mercado
- Crescimento global da categoria “bebidas fermentadas artesanais” acima de 12% ao ano
- Busca por rótulos com identidade territorial e ingredientes rastreáveis
- Baixa barreira de entrada tecnológica comparada a cervejarias ou vinícolas
- Valorização do mel como matéria-prima nobre — não apenas adoçante
Santa Catarina exportou 5,5 mil toneladas de mel entre janeiro e julho de 2026, superando o volume total de 2025. O estado lidera as exportações nacionais, e a presidência de Giulia à frente da FAASC (Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina) — primeira mulher no cargo, desde agosto de 2026 — coloca a bebida no centro da estratégia de valorização da cadeia.
O efeito nas pequenas agroindústrias
A gestão de Giulia na FAASC prioriza três eixos: fortalecer a marca “mel catarinense”, descentralizar decisões da capital para as regiões produtoras e ampliar a presença internacional. A proposta é ouvir presidentes de associações locais e percorrer polos produtivos — movimento raro em federações do setor.
Para o pequeno produtor, a sinalização é clara: agregação de valor ao mel bruto via bebidas, cosméticos e derivados deixa de ser nicho e entra na pauta institucional. A Néctar Hidromel funciona como caso-escola: escala artesanal, identidade regional e premiações técnicas abrem portas em feiras e canais premium.
O que observar nos próximos 12 meses
A expansão da Néctar para fora de Santa Catarina deve testar a replicabilidade do modelo — logística de frio, legislação interestadual de bebidas e aceitação sensorial em mercados não familiarizados com hidromel. Paralelamente, a atuação de Giulia na FAASC pode acelerar a criação de selos de origem e rastreabilidade que beneficiem toda a cadeia apícola catarinense.
Empresários do setor de bebidas e investidores em agroindústria de valor agregado ganham um termômetro real: o hidromel artesanal brasileiro deixou de ser curiosidade histórica para virar ativo de portfólio. A próxima safra de premiações e a evolução das exportações de mel dirão se a tendência se sustenta — ou se era apenas um brinde de garagem.
