As duas maiores forças políticas do Reino Unido somam menos de 50% das intenções de voto, mas seus líderes ainda ditam a agenda. Andy Burnham (Trabalhista) e Kemi Badenoch (Conservadora) usaram suas conferências recentes para mirar no mesmo alvo: o legado thatcherista. O problema é que ambos escolheram narrativas que não resistem aos números.
O que as urnas já disseram — e ninguém quer ouvir
Pesquisas recentes colocam o Partido Trabalhista com 27,9% e os Conservadores com 20,7%. Juntos, mal alcançam 48,6% do eleitorado. Metade do país já olhou para outro lado. Ainda assim, os discursos de Burnham e Badenoch ecoaram como se o debate estivesse restrito a eles.
A líder conservadora surpreendeu ao não citar Margaret Thatcher. Preferiu evocar Benjamin Disraeli e rejeitar qualquer aliança com o Reform UK, defendendo “caráter, conduta e padrões”. Foi um aceno à identidade — ela própria filha de imigrantes, mãe de crianças mestiças — que funcionou como contraponto à xenofobia do adversário à direita.
Mas a proposta de isentar a residência familiar do imposto sobre herança travaria ainda mais um mercado imobiliário que precisa de liquidez, não de mais trava.
O diagnóstico de Burnham: certo no sintoma, errado na causa
O prefeito da Grande Manchester tem discurso afiado. Aponta desindustrialização, desregulamentação, privatização, austeridade e Brexit como a cadeia de erros que levou o país ao impasse atual. Moradia, água, energia, transporte, assistência: “tudo desmembrado e vendido”, disse.
Parte disso procede. A privatização da água criou monopólios privados mal regulados. O fim da construção habitacional pelos conselhos locais derrubou a oferta: de 7 milhões de casas entre 1960 e 1980, para menos de 4 milhões entre 2005 e 2025. O resultado está nos preços de Londres e do Sudeste.
O passado que ninguém quer reviver de verdade
O contra-argumento é brutal. A Grã-Bretanha pré-Thatcher não funcionava. A indústria era refém de greves intermináveis — dias paralisados atingiram recordes no início dos anos 70, em 1979-80 e meados dos anos 80. A British Leyland, símbolo do setor automotivo, foi estatizada em 1975 após colapso.
Inflação no varejo bateu 27% ao ano em agosto de 1975. Ferrovias, telecomunicações, eletricidade e aviação estatais sofriam com controle de investimentos pelo Tesouro — politização pura. A privatização, onde houve competição real, melhorou serviços de forma drástica.
A desindustrialização não foi exclusividade britânica. Foi mais intensa por fragilidades estruturais dos fabricantes locais e erros macroeconômicos nos anos 80, mas era inevitável. Na era da IA, empregos fabris vão cair ainda mais.
O mito da “desregulamentação” que trava a construção
Burnham critica a desregulamentação. O diagnóstico inverte a realidade: o Reino Unido sofre de excesso de regulação, não de falta. Tentar construir uma ferrovia de alta velocidade, uma usina nuclear, um parque eólico, uma pista de aeroporto ou um conjunto habitacional virou pesadelo burocrático.
O grupo Britain Remade documenta isso: se o país fosse desregulamentado, a infraestrutura já estaria pronta. Não está. A interação entre regulações antigas e novas políticas de bem-estar criou incentivos perversos no mercado de trabalho — o próprio Burnham notou o número recorde de jovens que não estudam, não trabalham nem fazem treinamento.
O que o Orçamento da próxima semana precisa responder
Nem saudosismo dos anos 70, nem o slogan “reindustrialização”, nem a devolução de poderes por si só geram crescimento. O governo Burnham — ou qualquer governo — precisa de uma estratégia coerente que ataque o nó central: a capacidade de construir.
- Reforma do planejamento urbano para destravar moradia e infraestrutura
- Regulação proporcional em setores de monopólio natural (água, energia)
- Incentivos reais a investimento privado em tecnologia e energia limpa
O Orçamento da próxima semana será o primeiro teste real. Até lá, o debate continua preso no retrovisor — e o país, parado no acostamento.
