Uma minuta de resolução circulou nos bastidores do TSE para bloquear canais de WhatsApp com mais de 200 mil inscritos nas 48 horas anteriores ao pleito. A medida atingiria em cheio o principal instrumento de mobilização digital da campanha petista. Mas há um detalhe que muda tudo: o presidente da corte já afirmou que a proposta não será votada.
O texto, de autoria do ministro André Mendonça, equiparava grandes canais de transmissão ao uso de inteligência artificial — ambos proibidos no mesmo período. A redação previa vigência imediata após publicação.
Os números que explicam o alvo
O “Exército do Lula”, canal criado pelo deputado André Janones (Rede-MG), ultrapassou 7 milhões de inscritos. Do lado oposto, a “Tropa do Flávio” soma cerca de 2 milhões. A disparidade não para aí:
- Nikolas Ferreira (PL-MG): 24,8 milhões de seguidores no Instagram
- Pablo Marçal: 14,3 milhões de seguidores
- Canal petista no WhatsApp: 7 milhões (maior da plataforma)
Sem impulsionamento pago — outra proposta em discussão — a campanha de Lula perderia a única ferramenta de alcance massivo comparável à orgânica dos aliados bolsonaristas.
O que os ministros realmente combinaram
Segundo apuração junto a integrantes do tribunal, o consenso era apenas sobre bloquear a criação de novos canais políticos na reta final. A proibição retroativa para canais já existentes não tinha apoio majoritário.
Mendonça afirmou em nota que a minuta resultou de “decisão conjunta” e “consenso entre todos os ministros”. Kassio Nunes Marques, contudo, disse à reportagem que “o assunto está superado” e que não haverá votação.
O histórico que pesa na desconfiança
Não é a primeira vez que o “Exército do Lula” vira alvo. Em 11 de outubro, Kassio determinou a censura do canal atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro — decisão que ignorou o relator, corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva. Horas depois, Cueva derrubou a ordem por falta de provas.
Dias depois, com base em relatório técnico que apontava 499 mensagens apagadas, Kassio suspendeu novamente. A campanha petista registrou o canal oficialmente, e o presidente do TSE sinalizou a liberação.
Outra frente: o fim do impulsionamento político
Paralelamente, Mendonça defende vedar totalmente o impulsionamento de conteúdos político-eleitorais. Parte da corte apoia, citando falhas técnicas da Meta que prejudicaram campanhas. A ala contrária alerta: a medida beneficiaria desproporcionalmente o lado com maior alcance orgânico — hoje, a oposição ao governo.
O recado do STF para a corte eleitoral
Em evento na quarta-feira (21), o presidente do Supremo, Edson Fachin, afirmou que decisões judiciais têm sido “frequentemente reduzidas e instrumentalizadas por slogans”. Disse ainda que a democracia exige “lealdade às regras do jogo, inclusive por parte de quem perde”.
A fala foi lida como advertência à judicialização excessiva e à percepção de parcialidade que ronda o TSE neste segundo turno.
O que observar daqui para frente
Três pontos definem o cenário nas próximas 72 horas: (1) se a minuta será formalmente arquivada ou apenas “esquecida”; (2) como o plenário do TSE votará eventuais questionamentos sobre o “Exército do Lula” já registrado; (3) se a proposta de banir impulsionamento avança — o que redesenharia a comunicação de ambas as campanhas na reta final. Em ano de polarização extrema, cada regra nova é, na prática, uma jogada de xadrez.
